quarta-feira, 23 de março de 2016

Canto XXIII


PURGATÓRIO


Canto XXIII


            Dante fica a contemplar a copa da estranha árvore que encontraram em seu caminho -- comparando-se a “aquele que costuma desperdiçar a sua vida  caçando pássaros” (/.../ sì come far suole/ chi dietro a li uccellin sua vita perde- v. 2-3) – quando Virgílio o chama, “pois o tempo que nos é atribuído/ mais utilmente há de se repartir” (/.../ ché ‘l tempo che n’ è imposto/ più utilmente compartir si vuole- v.5-6).  Ele segue então os dois poetas, que conversam, e isso torna sua jornada mais fácil, ou “sem custo” (di nullo costo- v. 9).  Mas são surpreendidos por este fato: 

Ed ecco piangere e cantar s’udìe
“Labïa mëa, Domine” per modo
tal, che diletto e doglia parturìe.   (XXIII, 10-12)

E eis que se ouviu chorar e cantar/ “Labia mea, Domine” de modo tal / que produzia deleite e dor.        
    

             Labïa mëa, Domine”, conforme informam os comentadores, é o início do versículo 15 do salmo 51 (“Abre, ó Senhor, os meus lábios, e a minha boca entoará o teu louvor”) (1), uma lembrança do uso mais nobre da boca, o de louvar o Senhor, neste terraço dos gulosos, que só a usaram para comer e beber... Os versos acima contêm afirmações antagônicas, os chamados oxímoros: “chorar e cantar” e “deleite e dor”. Mais adiante, também teremos a ocorrência dessa figura de linguagem nos versos 64, 72, 74 e 86 (2), como se verá. O recurso frequente a ela certamente decorre da intenção do poeta em enfatizar a natureza dupla do Purgatório, lugar de sofrimento, pela purgação do pecado, mas também de alegria, porque permitirá, ao fim da estadia nele, o acesso ao Paraíso...  

            Dante pede a seu guia explicação para isso que ouve, e Virgílio lhe responde que são “Talvez sombras que caminham/ desatando o nó de sua dívida” (/.../ “Ombre che vanno/ forse di lor dover solvendo il nodo”- v. 14-15). A “dívida” é, naturalmente, metáfora do pecado da gula. E “desatar o nó” está por desfazer a culpa, saldar a dívida que os gulosos têm para com o Senhor... 


Amos Nattini
             Logo, “uma turba devota e silenciosa de almas” (d’anime turba tacita e devota- v. 21) que vinha atrás deles andando rapidamente os ultrapassa, olhando-os admirada. Dante descreve assim essas almas:

Ne li occhi era ciascuna oscura e cava,
palida ne la faccia, e tanto scema
che da l’ossa la pelle s’informava.    (XXIII, 22-24)

Cada uma tinha os olhos ocos e escuros,/ a face era pálida, e tão emagrecida/ que a pele tomava a forma dos ossos. 
            Segue-se a comparação delas, pela sua secura, primeiro a Erisicton -- o personagem da mitologia clássica cuja fome insaciável acabaria por levá-lo a devorar a si mesmo -- e depois aos judeus famintos na Jerusalém sitiada (destruída por Tito no ano 70 da nossa era) quando uma mulher chamada Maria matou e devorou o próprio filho, episódio relatado pelo  historiador do 1º século Flavius Josephus (3). Dante prossegue descrevendo as sombras nestes versos curiosos:

Parean l’occhiaie anella sanza gemme:
chi nel viso de li uomini legge “omo”
ben avria quivi conosciuta l’emme.    (XXIII, 31-33)

As órbitas de seus olhos pareciam anéis sem gemas:/ quem no rosto humano lê “OMO” / teria reconhecido aqui só o M. 

            Segundo Sayers, uma tradição medieval via no rosto do homem a palavra “(H) OMO DEI”, ou seja “homem (é) de Deus”, em que os OO de OMO são os olhos, M é o contorno do nariz, sobrancelhas e bochechas, D as orelhas, E as narinas e I a boca. Naturalmente, numa pessoa muito magra, as linhas que formam o M destacam-se em seu rosto... (4). Note-se que essa associação dos versos a uma imagem gráfica é um recurso bem moderno...  

            Na sequência, há uma explicação para a magreza dessas sombras: é o odor dos frutos e da água sobre as folhas daquela árvore insólita que, gerando um desejo não satisfeito, as reduz àquele estado... Essa é a razão “de sua magreza e da triste pele escamosa” (di lor magrezza e di lor trista squama- v. 39)...

            Surge então, daquela turba magérrima, alguém que, “do fundo da cabeça” (del profondo de la testa- v.40), volta para Dante os olhos, e olhando-o fixamente, exclama: “Que graça para mim é esta?” (“Qual grazia m’è questa?”-  v.42).  Dante não o reconhece de imediato:

Mai non l’avrei riconosciuto al viso;
ma ne la voce sua mi fu palese
ciò che l’aspetto in sé avea conquiso.   (XXIII, 43-45)

Nunca o teria reconhecido pelo rosto;/ mas a sua voz me revelou/ o que no seu aspecto se alterara.

            Dante vê que se trata de seu amigo íntimo Forese Donati, com quem ele trocou sonetos vulgares e obscenos na juventude, numa disputa poética tradicional chamada “tenzon”.  Era irmão de Corso Donati, líder do partido Negro florentino (adversário do partido Branco, de Dante), e de Piccarda, ambos a serem referidos no próximo Canto XXIV (5).


G.Doré- Forese

            Forese se manifesta nestes termos:

“Deh, non contendere a l’asciutta scabbia
che mi scolora”, pregava, “la pelle,
né a difetto di carne ch’io abbia;

ma dimmi il ver di te, dì chi son quelle
due anime che là ti fanno scorta;
non rimaner che tu non mi favelle!”    (XXIII, 49-54)

Ah, não repares na seca sarna/ que me descora a pele”, implorava,/ “nem na carne que não tenho mais;
mas dize a verdade sobre ti, dize quem são/ aquelas duas almas que te guiam;/ não fiques aí sem me falar!

            Note-se a aliteração dos versos originais, em que ocorrem muitos sons secos-- c e sc  -- como para acentuar a secura da pele que se escama (6)  

            Dante se emociona ao ver a face desfigurada do amigo:

“La faccia tua, ch’io lagrimai già morta,
mi dà di pianger mo non minor doglia,”
rispuos’io lui, “veggendola sì torta.     (XXIII, 55-57)

“A face tua, sobre a qual verti lágrimas, já morta,/ me dá agora um não menor desejo de chorar,/ vendo-a tão desfigurada”, lhe respondi.   

            Em seguida, pergunta qual a razão disso. E Forese lhe diz que aquela árvore e a água que escorre em sua copa, antes mencionadas,  têm “a virtude” (vertù- v. 62) “pela qual me definho(/.../ ond’io sì m’assottiglio- v. 63).  A fragrância dos pomos e da água em sua folhagem desperta nele e em seus companheiros desejo de comer e de beber. Mas como isso não é permitido, essa fome e sede os faz definhar constantemente. Porém tal sofrimento é bem aceito porque os purifica. Assim, toda essa gente “canta chorando” (piangendo canta- v. 64) (cf. o oxímoro) pois “aqui se refaz santa em fome e sede” (in fame e ‘n sete qui si rifà santa- v. 66). Sua pena abrange ainda andar em volta no terraço, uma pena que também é consolo (sollazzo- v. 72). Anima-os, segundo ele diz, o mesmo desejo “que levou Cristo a dizer alegremente “Eli”,/ quando nos libertou com o seu sangue” (che menò Cristo lieto a dire ‘Elì’,/ quando ne liberò con la sua vena-  v. 74-75), mais um oxímoro presente nos versos deste Canto  (“Eli” é o início das palavras, em aramaico, pronunciadas por Cristo quando morria na cruz, conforme o evangelho de S.Mateus 27:46. Traduzidas significam “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste”?) (7).  

            Dante se admira de Forese já se encontrar neste terraço da montanha do Purgatório, tendo em vista sua morte recente: “cinco anos não se passaram até aqui” (cinqu’ anni non son vòlti infino a qui- v. 78) desde que “mudaste de mundo por melhor vida” (mutasti mondo a miglior vita- v. 77). Pensava encontrá-lo na base da montanha, “onde o tempo com tempo se repara” (dove tempo per tempo si ristora- v. 84), considerando o tempo que levou para se arrepender da vida pecaminosa.

            Forese lhe explica que o privilégio de poder já estar “bebendo o doce absinto dos tormentos” (a ber lo dolce assenzo d’i martìri- v.86) (outro oxímoro), quer dizer, de já estar naquele nível da montanha, ele deve à sua viuvinha (la vedovella mia- v.92), Nella, a quem muito amou. Foi ela que o tirou da praia junto ao monte do Purgatório e o livrou dos outros círculos, “Com suas preces devotas e com suspiros” (Con suoi prieghi devoti e con sospiri- v. 88).  Nos versos seguintes ele elogia a virtude dela e critica “as descaradas florentinas” (le sfacciate donne fiorentine- v. 101) de seu tempo, a “andar mostrando com as mamas o peito” (l’andar mostrando con le poppe il petto- v. 102).  E afirma:

Ma se le svergognate fosser certe
di quel che ‘l ciel veloce loro ammanna,
già per urlare avrian le bocche aperte;    (XXIII, 106-108)

Mas se as desavergonhadas soubessem/  do que o céu veloz lhes prepara/ já teriam, para urrar, as bocas abertas;

            Os comentaristas afirmam que Dante-autor, ao incluir aqui esse elogio à esposa de Forese, está, de certa forma, se retratando da forma pouco respeitosa com que a tratou nos sonetos injuriosos que trocou com seu amigo quando jovem...

            Forese, em sua capacidade de fazer previsões, própria dos que estão no Além, afirma que essas mulheres, como todos em Florença, vão abrir a boca (mencionada novamente, não por acaso...) para gritar de dor; “ficarão tristes antes que surjam pelos/ nas faces daqueles que ora são ninados” (prima fien triste che le guance impeli/ colui che mo si consola con nanna-  v. 110-111), ou seja, antes que cresça a barba nos meninos de agora, antes que eles atinjam a adolescência. Os comentaristas arrolam diversos fatos que comprovam essa “previsão” no período de uns 15 anos após 1300 (a invasão de Charles de Valois, desastres naturais etc) (8).

            No final de sua manifestação, pede a Dante que fale sobre si, pois Forese, e toda a gente que ali está, “olha o lugar onde tu és obstáculo ao sol” (tutta rimira là dove ‘l sol veli- v. 114).  Dante então lembra ao amigo a vida (desregrada) que juntos levaram na juventude, uma lembrança penosa (v. 117) porque associada ao pecado. Diz que de tal vida o tirou Virgílio numa noite de lua cheia (a lua é referida como a irmã do sol, o que está de acordo com suas personificações na mitologia clássica, onde Diana, a lua, é irmã de Apolo, o sol) (9). Diz que seu guia o conduziu, ainda vivo, “pela profunda/ noite dos mortos verdadeiros(/.../ per la profonda/ notte menato m’ ha d’i veri morti- v. 121-122), i.e. o Inferno, e também o acompanha agora, “subindo e dando voltas na montanha/ que vos endireita, vós, que o mundo tornou tortos” (salendo e rigirando la montagna/ che drizza voi che ‘l mondo fece torti- v. 125-126), até que ele encontre Beatriz.  Dante conclui o Canto dizendo a Forese que a outra pessoa que ele segue

/.../ è quell’ombra
per cui scosse dianzi ogne pendice
lo vostro regno, che da sé lo sgombra”.    (XXIII, 131-133) 

/.../ é aquela sombra/ por quem tremeram há pouco todas as encostas/ do vosso reino, que de si o libera




NOTAS

(1) “BÍBLIA Sagrada”. Tradução de João Ferreira de Almeida. Editora Vida, 1994, p. 505

(2) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”. Bantam Books, 1984-p. 374

(3) Id. ib., p. 374

(4) SAYERS, Dorothy L.—“Dante: The Divine Comedy-  II. Purgatory”. Translated by Dorothy L. Sayers.  Penguin Classics, 1963, p. 251.

(5) Id., ib, p. 251-252 e 362.

(6) ZOLI, M e ZANOBINI, F- Dante Alighieri- “La Divina Commedia”- a cura di M. ZOLI e F. ZANOBINI. Firenze: Bulgarini,  2013-  p.599

(7) SAYERS, Dorothy L.—“Dante: The Divine Comedy-  II. Purgatory”, op cit, p. 252. Cf. também  a Bíblia  referida acima e “The Penguin Dictionary of Foreign Terms and Phrases”, 1993, p. 108

(8) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”, op cit, p. 376.

(9) Id., ib, p. 376.

  
Salvador Dalí 



sábado, 5 de março de 2016

Canto XXII

PURGATÓRIO


Canto XXII


            Um anjo, após encaminhar os dois poetas para o próximo terraço, o sexto (dos gulosos), apaga mais um “P” da testa de Dante, o do pecado da avareza, de cujo terraço eles estão saindo agora (v.3).  O anjo também declama mais uma bem-aventurança (“Bem aventurados os que têm sede e fome de justiça”) mas interrompe-se em “sitiunt”, “os que têm sede”, da citação em latim do Evangelho, conforme o v.6.  A segunda parte da bem-aventurança, relativa aos “que têm fome”, será citada mais adiante (final do capítulo XXIV) quando o poema tratar dos que purgam o pecado da gula. (1)

            Virgílio em seguida dirige-se a Estácio, iniciando por

/.../ “Amore,
acceso di virtù, sempre altro accese,
pur che la fiamma sua paresse fore;   (XXII, 10-12)

/.../  “O amor/ aceso pela virtude, sempre outro acende/ contanto que sua chama se manifeste;

            Isso ocorreu com Virgílio ao saber no Limbo -- por Juvenal, o poeta satírico latino -- da afeição de Estácio por ele, o que naturalmente  tornou o autor da “Eneida” benevolente com relação a Estácio. Depois Virgílio lhe pergunta “como pôde encontrar espaço no teu seio/ a avareza” (come poté trovar dentro al tuo seno/ loco avarizia /.../- v. 22-23), ele que é tão cheio de sabedoria. Estácio percebe então que o poeta se equivoca sobre o motivo dele ter estado ali no quinto terraço. Mas ocorre que nesse lugar também expiam os que pecaram pela prodigalidade, o oposto da avareza (“pelo contrário dela ali me achava”: per lo contrario suo m’è incontrato- v. 54). Aliás, Estácio diz que foi o próprio Virgílio quem o alertou para tal “desmedida” (dismisura- v. 35) com relação ao uso do dinheiro, quando escreveu (na tradução de Dante dos versos, em latim, da “Eneida”): “Por que não regulas tu, ó sacra fome/ de ouro, o apetite dos mortais?” (“Perché non reggi tu, o sacra fame/ de l’oro, l’appetito de’ mortali?”- v. 40-41). Se não tivesse se arrependido a tempo, “estaria agora rolando pedras em tristes justas” (voltando sentirei le giostre grame- v. 42), o castigo no Inferno imposto aos pródigos (e também avarentos).

Allor m’accorsi che troppo aprir l’ali
potean le mani a spendere, e pente ‘mi
così di quel come de li altri mali.   (XXII, 43-45) 

Então me dei conta que abrir as asas demais/ as mãos podiam ao gastar, e me arrependi/ assim deste, como de outros pecados.

            Na continuação do diálogo, Virgílio quer saber de Estácio quando foi que se converteu ao Cristianismo. Nota que quando cantou “a guerra cruel/ da dupla tristeza de Jocasta” (/.../ le crude armi/ de la doppia trestizia di Giocasta-  55-56), (i.e. quando compôs o seu poema “Tebaida”, que trata da guerra, em Tebas, entre os dois filhos, que se matam, de Jocasta e Édipo), “não parece que fosse fiel/ à fé, sem a qual não bastam boas obras” (non par che ti facesse ancor fedele/ la fede, sanza qual ben far non basta- v. 59-60).

Se cosi è, qual sole quai candele
ti stenebraron sì, che tu drizzasti
poscia di retro al pescator le vele?   (XXII, 61-63)

Se é assim, que sol que círios/ te iluminaram, a ponto de dirigir/ as velas atrás do pescador?

            Nesse terceto alegórico, “Sol” substitui “graça divina” e “círios”, “ensinamentos humanos” (2). Eles iluminaram “o barco de” Estácio, cujas velas se orientaram para seguir o “pescador”, quer dizer, S.Pedro, o chefe da igreja de Cristo.

            Na sequência, Estácio refere-se ao fato de que Virgílio o introduziu nos domínios da poesia, ou das Musas -- que residiam no monte Parnaso -- e contribuiu para a sua conversão ao Cristianismo, apesar dele ter vivido no tempo do paganismo. É que nas “Bucólicas” constam uns versos (transcritos nos v. 70-72, que Dante traduz do latim) que os antigos interpretavam como sendo uma predição da vinda de Cristo... Diz Estácio:

/.../ “Tu prima m’invïasti
verso Parnaso a ber ne le sue grotte,
e prima appresso Dio m’alluminasti.

Facesti come quei che va di notte,
che porta il lume dietro e sé non giova,
ma dopo sé fa le persone dotte     (XXII, 64-69)

/.../ “Foste o primeiro a me enviar/ ao Parnaso para beber em suas grutas,/ e o primeiro a me iluminar para Deus.
Fizeste como aquele que caminha à noite,/ que leva a luz atrás e a si não serve,/ mas sim às pessoas que o seguem

            Note-se a comparação, essencialmente visual, dos v. 67-69. Mais adiante, no v. 73, Estácio assim sumariza a influência de Virgílio: “Por ti poeta fui, por ti cristão” (Per te poeta fui, per te cristiano).  

            Estácio passa, segundo afirma, a frequentar os “novos pregadores” (nuovi predicanti- v. 80) e adota sua seita, chorando junto aos cristãos a perseguição contra eles movida por Domiciano (v. 83), o imperador romano sucessor de Tito, ambos filhos de Vespasiano (3).  “Mas por medo” ele foi “um cristão secreto” (ma per paura chiuso cristian fu’mi- v. 90), que não assumiu a sua fé abertamente, e aparentou permanecer no paganismo. Por isso, pela sua “tepidez” (tepidezza- v.92), teve que permanecer no quarto terraço (o dos indolentes ou acidiosos) mais de quatro séculos (que vão se acrescentar aos cinco que passou no terraço dos avarentos/pródigos). Estácio agora quer aproveitar o tempo em que eles avançam em sua escalada na montanha e pergunta onde estão os poetas latinos Terêncio, Cecílio, Plauto e Vário:  “diz-me se estão condenados e em qual círculo” (dimmi se son dannati, e in qual vico- v. 99).  Virgílio lhe responde que todos esses, além de Pérsio e dele próprio, estão


/.../ con quel Greco
che le Muse lattar più ch’altri mai,
nel primo cinghio del cárcere cieco    (XXII, 101-103)

/.../ com aquele grego / que as Musas nutriram mais do que qualquer outro / no primeiro círculo do cárcere cego.

            O poeta grego tão elogiado assim por Dante é, naturalmente, Homero.

            A metáfora do “cárcere cego” para o Inferno se explica pelo fato de que ali não há luz. Os pagãos estão em seu primeiro círculo, no vestíbulo do Inferno, ou seja, no Limbo. Virgílio acrescenta outros poetas gregos que lá estão-- Eurípedes, Antifonte, Simonides, Agaton e também, diz ele a Estácio, “gente tua” (le genti tue- v.109), vale dizer, personagens de seus poemas “Tebaida”  (Antígona, Deífele, Argia, Ismênia) e “Aquileida” (Tétis e Deidamia). Menciona ainda “aquela que mostrou (a fonte de) Langia” (v. 112) (i.e. Hipsipile) para os sedentos soldados dos sete reis que marcharam contra Tebas, e “a filha de Tirésias”, o advinho (4).  

Amos Nattini

            Chegando ao sexto terraço, os poetas se calam, “atentos a olhar em torno(/.../ attenti a riguardar dintorno- v.116). Era a quinta hora do dia, ou seja, entre 10 e 11 horas da manhã (da terça-feira de Páscoa, 12 de abril de 1300), pois para os antigos o dia começava às 6 horas, e essa convenção é adotada no poema. É dessa maneira que os comentadores interpretam os versos 118-119, que dizem literalmente: “e já as quatro servas do dia (= as horas) tinham/ ficado para trás, e a quinta guiava o carro (do sol)” (e già le quattro ancelle eran del giorno/ rimase a dietro, e la quinta era al temo). Os três peregrinos decidem então, mantendo o lado direito junto à encosta, circundar o monte neste terraço.

            E Dante segue aqueles dois poetas latinos que admira, um representante da razão leiga, e outro, da razão aliada à fé cristã, atento à sua conversação:

Elli givan dinanzi, e io soletto
di retro, e ascoltava i lor sermoni,
ch’ a poetar mi davano intelletto.    (XXII,  127-129)

Eles iam na frente, e eu sozinho,/ atrás, e escutava suas palavras,/ que me instruíam na arte da poesia

            Mas essa conversa é interrompida quando se deparam com uma árvore estranha em seu caminho, “com frutos de odor suave e bom” (con pomi a odorar soavi e buoni- v.132), que, ao contrário do abeto, diminuía para baixo, “para que  ninguém suba nela” (/.../ perché persona sù non vada- v. 135), diz Dante. Uma “água límpida” (liquor chiaro- v. 137) vinda do paredão de rocha se espalhava sobre as suas folhas, no alto, enquanto ouvem uma voz expressar uma proibição:

Li due poeti a l’alber s’appressaro;
e una voce per entro le fronde
gridò: “Di questo cibo avrete caro.”    (XXII, 139-141)

Os dois poetas da árvore se aproximaram;/ e uma voz por entre a fronde/ gritou: “Sentireis falta deste alimento”.

            Após essa advertência, a voz cita cinco exemplos de temperança, a virtude contrária ao pecado da gula, já que os poetas estão entrando no terraço dos que incorreram nele, mas se arrependeram enquanto era tempo. O Canto XXII conclui arrolando esses cinco exemplos, que são os seguintes: 1) nas “bodas” (le nozze- v. 143) (de Caná, subentende-se) Maria pensava mais nos convidados do que em sua  própria  boca; 2) as antigas romanas só bebiam água (e não vinho); 3) Daniel, conforme a Bíblia (Dan., 1-8), desprezou os alimentos oferecidos pelo rei Nabucodonosor; 4) na “idade primeira” (lo secol primo- v. 148), a idade de ouro, os homens se alimentavam precariamente; 5) “Mel e gafanhotos foram os alimentos/ que nutriram o Batista no deserto” (Mele e locuste furon le vivande/ che nodriro il Batista nel diserto- v. 151-152) (5)

            Essa árvore insólita do sexto terraço lembra a “do conhecimento do bem e do mal” no jardim do Éden referida na Bíblia (Gen, 2:17) segundo Mandelbaum (6). A proibição salienta o seu caráter extraordinário (e misterioso), emanada de um plano superior, divino. Obedecer as leis de Deus é pré-requisito para a salvação da alma...   



NOTAS


(1) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”. Bantam Books, 1984- p.371.

(2) MAGUGLIANI, Lodovico- “Dante Alighieri- La Divina Commedia. Purgatorio. Introduzione di Bianca Garavelli. Note di Lodovico Magugliani. Biblioteca Universale Rizzoli- Superclassici, 1995- p. 167.

(3) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”, op cit, p. 372. 

(4) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume II: Purgatory”. Translated with an Introduction, Notes, and Commentary by Mark Musa. Penguin Books, 1985, p. 246. Cf.  também LONGNON, Henri— “Dante- La Divine Comédie”. Traduction, préface, notes et commentaires par Henri Longnon. Paris: Garnier, 1951- p.606 e 285. 

(5) SAYERS, Dorothy L.—“Dante: The Divine Comedy-  II. Purgatory”. Translated by Dorothy L. Sayers.  Penguin Classics, 1963, p. 246.

(6) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”, op cit, p.373.   






terça-feira, 1 de março de 2016

Canto XXI

PURGATÓRIO


Canto XXI


            Logo de início, Dante relaciona sua situação a dois episódios da vida de Cristo, conforme os Evangelhos. Quanto ao primeiro, sua sede por conhecimento (no caso imediato, para saber a razão do tremor na montanha do Purgatório e do que motivou aquelas almas exclamarem em uníssono “Gloria in excelsis Deo”) só será aplacada pela água “da qual a mulher/ de Samaria pediu a graça” (/.../ onde la femminetta/ samaritana domandò la grazia- v. 2-3). Esta é a graça divina, ou da revelação (1). Dante faz alusão aqui ao encontro, relatado por S.João, da samaritana com Cristo junto a um poço, de onde ela retirava água. Ele lhe falou de uma outra água, que satisfaria a sua sede para sempre...

            O segundo episódio, descrito por S. Lucas, é o dos dois discípulos que, no caminho de Emaús, encontram Cristo, após a ressurreição, e só vão saber quem é seu acompanhante mais tarde. Essa alusão é feita a partir do v.7, quando os versos mencionam que um espírito, atrás dos dois poetas, toma a iniciativa de lhes falar, enquanto eles se deslocam pelo terraço atulhado de avarentos, cuidando para não pisar nos que ali jazem (é interessante notar a habilidade de Dante nessa passagem, pois ao associar a esse espírito que se dirige a eles a imagem insubstancial de um homem – Cristo --  “após ter saído da sepulcral cova” (giù surto fuor de la sepulcral buca- v. 9) -- evoca conotações que reforçam a atmosfera do Além desejada pelo poeta). 

Amos Nattini
             Após saudar aquela sombra, que só vai se identificar mais adiante (no v.91), Virgílio lhe deseja o melhor e lamenta a condição dele próprio, de seu “exílio” (dado que viveu no tempo do paganismo, antes que Cristo abrisse as portas do Paraíso para os seres humanos):

/.../ “Nel beato concilio
ti ponga in pace la verace corte
che me rilega ne l’etterno essilio.”   (XXI, 16-18)

/.../ “No reino bem aventurado/ te ponha em paz a corte da verdade/ que me retém no eterno exílio.

            O espírito se admira por eles estarem ali, “se sois sombras que Deus não julga dignas de subir” (se voi siete ombre che Dio sù non degni- v. 20). Virgílio lhe explica então o privilégio que coube ao seu discípulo ainda vivo de realizar aquela jornada (este traz sinais na fronte feitos por um anjo”: /.../ segni/ che questi porta e che l’angel profila- v. 22-23), e a sua convocação para guiá-lo “até o ponto que minha orientação puder alcançar (/.../ quanto ‘l potrà menar mia scola- v. 33). Apresenta então a alegoria da roca, conforme os versos abaixo, que exploram mais uma vez o rico filão da mitologia clássica:

Ma perché lei che dì e notte fila
non li avea tratta ancora la conocchia
che Cloto impone a ciascuno e compila,

l’anima sua, ch’ è tua  e mia serocchia,
venendo sù, non potea venir sola,
però ch’al nostro modo non adocchia.   (XXI, 25-30)

Mas como aquela que fia dia e noite/ não lhe puxara ainda toda a estriga / que Cloto enrola para cada um na roca,
a alma dele, que é tua e minha irmã/ em sua ascensão, não podia vir só,/ pois não vê do modo como nós vemos.

            Assim, para dizer que Dante ainda vive, que o fio da sua vida ainda não foi cortado, o poeta evoca duas das três Parcas da mitologia: Cloto é quem prepara a estriga (ou seja, a “Porção de linho que se põe duma vez na roca para fiar”) (2) e Laquesis é “aquela que fia dia e noite” (v.25). Não menciona Atropos, a que corta o fio, símbolo da vida, quando esta atinge a extensão que nos foi reservada (3).   

            Virgílio na sequência lhe pergunta o que Dante está muito curioso de saber, vale dizer a razão do tremor do monte e da “Glória” gritada por todos. Dante então usa outra metáfora, em que “fundo de agulha” indica o ponto essencial da sua curiosidade: 

Sì mi diè, dimandando, per la cruna
del mio disio, che pur con la speranza
si fece la mia sete men digiuna.    (XXI, 37-39)

Assim perguntando, ele passou o fio pelo fundo de agulha/ do meu desejo, de modo que só com a esperança de saber/ minha sede se fez menos sentir.  

            Mas antes de responder, o espírito lhe diz que, acima da escadinha de três degraus, ou do degrau mais alto, “onde o vigário de Pedro tem os pés” (dov’ ha ‘l vicario di Pietro le piante- v. 54) (esse representante de S.Pedro, como vimos, é o anjo que guarda a entrada do Purgatório propriamente dito), o monte não apresenta fenômenos da natureza com a mesma explicação terrena (chuva, granizo, neve, relâmpagos, trovões etc ). Tal explicação é dada pela teoria de Aristóteles, do vapor úmido e do vapor seco (este referido no v. 52), adotada aqui por Dante segundo Ciardi (4). Assim, de acordo com essa teoria, o terremoto em nosso mundo seria causado pelo vapor seco subterrâneo, ou “por vento que na terra se esconda” (ma per vento che ‘n terra si nasconda- v. 56).

            Porém acima do três degraus da entrada do Purgatório, quer dizer no Purgatório propriamente dito (antecedido pelo Antepurgatório, local dos oito primeiros cantos, como vimos), os fenômenos não tem explicação terrena. O espírito explica deste modo o tremor da montanha:

Tremaci quando alcuna anima monda
sentesi, sì che surga o che si mova
per salir sù; e tal grido seconda.   (XXI, 58-60)

Treme quando alguma alma sente-se/ limpa, de modo que se ergue ou se move/ para subir; e segue-se aquele grito.   

            Explica também que tudo se passa no âmbito do próprio penitente, cuja vontade pode ser “absoluta” (a da Justiça Divina) ou “relativa”, conforme a filosofia escolástica (5). Quando ele enfim cumpre o seu período de purgação, sente-se livre para subir para o Paraíso, e sua vontade se concretiza. Purificado, está “livre para mudar de residência,/ surpreende a alma, contente por querer isso(/.../ tutto libero a mutar convento,/ l’alma sorprende, e di voler le giova- v.62-63). Então a vontade relativa coincide com a absoluta. Mas enquanto conserva a mácula do pecado, ele não se permite subir (ou sua vontade absoluta não o deixa subir), embora o deseje (essa é a vontade relativa, a mesma que o levou antes a pecar). Ele assim impõe a si mesmo a sua permanência no Purgatório a fim de primeiro purificar-se, ou seja, remover toda mancha de pecado que possa ter. Como dizem estes versos:

Prima vuol ben, ma non lascia il talento
che divina giustizia, contra voglia,
come fu al peccar, pone al tormento.   (XXI, 64-66)

Antes a alma quis subir, mas não a deixou sua vontade;/ a justiça divina faz essa vontade/ desejosa de castigo, como foi de pecar.  

            O espírito faz então uma revelação surpreendente. Ele sofreu ali o tormento dos avarentos/ esbanjadores (uns preocupados demais com os bens terrenos, outros de menos), jazendo com eles por mais de quinhentos anos. Mas agora sente “a vontade livre para adentrar melhor porta”  (libera volontà di miglior soglia- v. 69). E explica:

però sentisti il tremoto e li pii
spiriti per lo monte render lode
a quel Segnor, che tosto sù li ‘nvii.   (XXI,  70-72)

por isso ouviste o terremoto, e os piedosos/ espíritos por todo o monte louvando/ o Senhor, que cedo os envie para cima.

            Dante se rejubila em saber disso, vendo a sua curiosidade enfim saciada. Mas Virgílio ainda está curioso, e roga ao espírito dizer quem foi e “porque tantos séculos jazeste aqui” (e perché tanti secoli giaciuto- v. 80). Ele então lhe responde que viveu, “com o nome que mais dura e mais honra” (col nome che più dura e più onora- v.85), i.e. o de poeta,

Nel tempo che ‘l buon Tito, con l’aiuto
del sommo rege, vendicò le fora
ond’ uscì ‘l sangue per Giuda venduto   (XXI, 82-84)

No tempo em que o bom Tito, com a ajuda/ do sumo Rei, vingou as feridas/ de onde saiu o sangue vendido por Judas 

ou seja, esse espírito viveu no tempo de Tito que, conforme os comentaristas, era filho do imperador romano Vespasiano e destruiu Jerusalém no ano 70 d.C.  Por isso, os versos dizem que Tito, com a ajuda de Deus (= “o sumo Rei”), vingou a morte de Cristo pelos judeus...  
           
            No v. 91, finalmente, o espírito se identifica. Trata-se de Estácio (ca. 45-96 d.C), o poeta latino, “bastante famoso, mas sem fé ainda”  (famoso assai, ma non con fede ancora- v. 87) no tempo de Tito (Dante pressupõe que ele se converteu depois ao Cristianismo), reconhecido na Roma de sua época (“onde mereci ornar as têmporas com mirto”: dove mertai le tempie ornar di mirto- v. 90):

Stazio la gente ancor di là mi noma:
cantai di Tebe, e poi del grande Achille;
ma caddi in via con la seconda soma.   (XXI, 91-93)

Estácio a gente de lá ainda me chama:/ cantei Tebas e depois o grande Aquiles;/ mas caí no caminho com o segundo fardo

            Estácio é o autor da “Tebaida” (poema épico sobre a rivalidade entre Eteocles e Polinice, filhos de Édipo, e a expedição dos sete chefes locais contra Tebas).É autor também do poema “Aquileida” (sobre o herói grego Aquiles que participou da guerra de Troia), obra inacabada (6). A “Tebaida” é muito citada por Dante na “Comédia”. Sayers salienta que o interesse de Dante por Estácio pode ser devido ao fato de que ele explora a alegoria como forma literária. Além disso, Estácio representa a nova Roma, a do humanismo cristão, que fará par com o representante do humanismo pagão da velha Roma, Virgílio (7). Como dizem os versos acima, esse segundo trabalho (“fardo”), a “Aquileida”, estava em elaboração quando Estácio morreu (“caiu” na via ou caminho, imagem esta associada à vida, o que já ocorre no primeiro verso da “Comédia”).    

            Nos versos seguintes Estácio faz um elogio à “Eneida”, essa “divina chama/ em que se iluminaram mais de mil” (poetas) (/.../ divina fiamma/ onde sono allumati più di mille- v.95-96), inclusive ele.  Para Estácio, a Eneida “me foi mãe/ e me foi nutriz poetando:/ sem ela minha obra não pesaria nem um dracma(/.../ la qual mamma/ fummi, e fummi nutrice, poetando:/ sanz’ essa non fermai peso di dramma- v. 97-99) (um dracma correspondia à oitava parte da onça) (8). E acrescenta que para ter vivido na época de Virgílio aceitaria até ficar mais um ano no Purgatório.

            Ao ouvir essas palavras, pela expressão de Virgílio Dante entende que não deve falar nada. Mas não consegue esconder um sorriso, o que faz Estácio calar-se, olhá-lo “nos olhos onde o sentimento mais se manifesta” (ne li occhi ove ‘l sembiante più si ficca- v. 111) e perguntar a razão desse sorriso. Dante fica dividido entre um e outro, entre calar e falar; mas Virgílio o livra do impasse dizendo para ele responder à pergunta de Estácio. E o faz nestes termos:

Questi che guida in alto li occhi miei,
è quel Virgilio dal qual tu togliesti
forte a cantar de li uomini e d’i dèi.  (XXI, 124- 126)

Este que guia para o alto os olhos meus/ é aquele Virgílio de quem tiraste/ a força para cantar sobre homens e sobre deuses.

            Estácio então logo se inclina para abraçar os pés de Virgílio, mas este o impede dizendo: “Irmão,/ não o faças; porque tu és sombra, e sombra vês” ( /.../ “Frate,/ non far, ché tu se’ ombra e ombra vedi.”-  v. 131-132).
           
            A isso, Estácio, erguendo-se, responde:

/.../ “Or puoi la quantitate
comprender de l’amor ch’a te mi scalda,
quand’ io dismento nostra vanitate,
trattando l’ombre come cosa salda”   (XXI, 133-136)

/.../ “Agora podes compreender/ a quantidade de amor que me inflama por ti,/ quando esqueço nossa inconsistência/ tratando sombras como coisas sólidas”.  

            Vale salientar, a propósito do enredo, que o Canto mantém o leitor sempre em suspense, primeiro ao demorar para revelar a identidade do espírito que se dirige aos dois poetas. E depois ao reservar para o final a revelação a Estácio de que o guia de Dante-personagem é o poeta que ele mais admira (aqui, naturalmente Estácio apenas externa a admiração de Dante-autor pelo poeta mantuano).    


NOTAS


(1) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”. Bantam Books, 1984- p.369.

(2) AURÉLIO Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986- 2ª ed., rev. e ampl., p. 729  (verbete “Estriga”).  

(3) MARTINS, Cristiano-  “A Divina Comédia- Dante Alighieri”. Tradução, introdução e notas de Cristiano Martins-  5ª edição. Belo Horizonte: Itatiaia, 1989- v. 2, p. 190

(4) CIARDI, John- “Dante- The Purgatorio”. Signet Classics, 2009- p.213

(5) Id., ib, p. 214

(6) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume II: Purgatory”. Translated with an Introduction, Notes, and Commentary by Mark Musa. Penguin Books, 1985, p. 234

(7) SAYERS, Dorothy L.—“Dante: The Divine Comedy-  II. Purgatory”. Translated by Dorothy L. Sayers.  Penguin Classics, 1963, p. 238

(8) MOURA, Vasco Graça—“Dante Alighieri- A Divina Comédia”- Introdução, tradução e notas de Vasco da Graça Moura. S.Paulo: Landmark, 2005- p.485.    


Salvador Dalí  (a Samaritana)