sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Canto IV

PURGATÓRIO


Canto IV 


            O Canto inicia com versos que contestam uma concepção antiga (de Platão, segundo os comentaristas), a de que o ser humano possui mais de uma alma. Nesse caso, a alma não seria tomada exclusivamente pela dor ou o prazer, quando um sentimento forte dessa natureza a monopoliza (v.1-4). Dante, como bom católico, afirma que a alma é única. Caso contrário, a pessoa poderia concentrar-se simultaneamente em várias questões, e não é isso o que ocorre, como a sua própria experiência demonstra agora. Ele não sente a passagem do tempo, concentrado no que lhe dissera há pouco Manfredo (sobre a influência benéfica ali das preces dos vivos- cf. final do Canto III) até que o bando dos espíritos dos excomungados, antes de se retirar, lhes indique o caminho para prosseguir na subida da montanha do Purgatório, conforme a sua solicitação.


G.Doré- A subida

            Mas o caminho é muito difícil de escalar:

Noi salavam per entro ‘l sasso roto,
e d’ogne lato ne stringea lo stremo,
e piedi e man volea il suol di sotto.  (IV, 31-33)

Nós subíamos por dentro da rocha fendida,/ de cada lado premidos pelos extremos,/ o solo embaixo requeria pés e mãos.

            Dante faz antes uma comparação, inspirada no meio rural. Afirma que tal caminho é mais estreito que a abertura (na cerca-viva) que o camponês fecha com um forcado de espinhos quando suas uvas escurecem (para evitar a entrada de ladrões). Mais adiante, Virgílio dirá que essa dificuldade é só do início. Depois, a escalada tende a ficar mais leve, à medida que os penitentes se aproximarem do cume da montanha:

Ed elli a me: “Questa montagna è tale,
che sempre al cominciar di sotte è grave;
e quant’ om più va sù, e men fa male.” (IV, 88-90)

E ele para mim: “Esta montanha é de tal modo/ que subi-la no começo é mais difícil;/ e quanto mais para cima vamos, menos faz mal”.

            O fim da jornada será tão fácil “como navegar correnteza abaixo” (com’a seconda giù andar per nave- v. 93), mais uma comparação.

            Assim, alegoricamente, a maior dificuldade está em iniciar de fato, por parte da pessoa (Dante) interessada em ver Deus, essa árdua jornada de autoaperfeiçoamento pela penitência, pré-requisito indispensável para concretizar o seu desejo.     

            Mas o cume é tão alto que a vista de Dante não o alcança, “e a encosta bem mais íngreme/ que a linha traçada ao centro, a meio do quadrante” (e la costa superba più assai/ che da mezzo quadrante a centro lista- v.41-42), quer dizer, a encosta era mais inclinada que 45º.  Por isso, já ao fim de uma primeira etapa na montanha ele está exausto (lembremo-nos que só ele tem peso, por estar vivo ainda). Virgílio sugere então que Dante avance só um pouco mais, até um terraço próximo. Ali sentam-se; olham para o oriente e o trecho já vencido, o que é motivo de satisfação. Dante admira-se de que o sol os atingisse pela esquerda. Na explicação do guia está implícito que isso é uma peculiaridade do hemisfério sul (ou austral) em que estão.  O poeta usa aqui sua  linguagem peculiar: o sol é chamado de “carro da luz” (carro de la luce- v. 59) e o norte, de “Aquilão” (Aquilone- v. 60), o nome romano do Vento Norte na mitologia clássica (1). Mais adiante, o sol é chamado de “espelho” (specchio- v.62) e sua trajetória, de estrada “que Faetonte não soube dirigir” (che mal non seppe carreggiar Fetòn- v.72), mais uma referência de Dante-autor à mitologia (Faetonte  pediu a seu pai, Apolo, o condutor do carro do sol, para dirigi-lo por um dia; mas perdeu o controle das rédeas e tirou o sol de seu curso, ameaçando os Céus e a Terra, sendo por isso fulminado por Zeus) (2).  Nesse contexto, Dante usa um longo circunlóquio, destinado a demonstrar seu conhecimento de astronomia, apenas para dizer que a montanha do Purgatório, no hemisfério austral, está numa localização antípoda à do monte Sião (ou a Jerusalém), no hemisfério boreal. Também para dizer que ambos os montes fazem parte do mesmo meridiano, pois eles têm “um só horizonte” (un solo orizzòn- v. 70). E que estão equidistantes  do Equador (v. 79).  

G.Doré- Os arrependidos tardiamente

            Depois, o Canto relata o encontro dos poetas com Belacqua, um artesão florentino amigo de Dante que fabricava alaúdes. Ficamos sabendo disso pelos comentários, não pelos versos em si, que apenas acentuam a sua preguiça de avançar na jornada (ele já era preguiçoso quando vivo, conforme o v. 126).  Dante ao observá-lo, personaliza a preguiça, ao afirmar para Virgílio:

/.../ adocchia
colui che mostra sé più negligente
che se pigrizia fosse sua serocchia (IV, 109-111)

/.../ olha/ aquele que se mostra mais negligente/ do que se fosse a preguiça sua irmã.


            Ele, juntamente com outros espíritos, está sentado à sombra, atrás de uma grande pedra. Belacqua, como interlocutor de Dante, passa a representar o seu grupo, conforme o padrão usado pelo poeta desde o “Inferno” para caracterizar as diversas turmas de almas que vai encontrando pelo caminho.  Ele está sentado abraçando os próprios joelhos, com a cabeça baixa, que só ergue, lentamente, para dizer algumas palavras ao conterrâneo. Pela sua manifestação, deduzimos que esse grupo é o segundo daqueles espíritos que se arrependeram tardiamente em vida, o dos indolentes (o primeiro foi o dos excomungados, como vimos). Ele explica a Dante que não vale a pena se apressar pois será barrado lá em cima pelo “anjo de Deus que, no alto,  guarda a porta” (l’angel di Dio che siede in su la porta- v. 129), ou a entrada do Purgatório propriamente dito (estamos assim no Antepurgatório). Pois segundo as normas celestes, antes de entrar -- para começar a cumprir sua penitência – deverá aguardar fora tanto tempo quanto viveu sem arrepender-se dos pecados:

Prima convien che tanto il ciel m’aggiri
di fuor da essa, quanto fece in vita,
per ch’io ‘ndugiai al fine i buon sospiri,

se orazïone in prima non m’aita
che surga sù di cuor che in grazia viva;
l’altra che val, che ‘n ciel non è udita?  (IV, 130-135)

Antes é preciso que fora dela (da entrada no Purgatório) os céus girem/ tantas vezes quantas fizeram enquanto eu vivi/ uma vez que eu posterguei os bons suspiros até o fim,
a menos que eu seja ajudado por oração/ que se erga de coração que em graça viva;/ que vale uma outra, se no céu não é ouvida?

            Virgílio retoma a escalada e pede para seu discípulo segui-lo, pois o sol ali já toca o meridiano, quer dizer, já é meio-dia. E afirma que começa a anoitecer em Marrocos. Nestes últimos versos, Dante-autor continua a ver os dois peregrinos com a ótica do globo terrestre, coerente com as extensas considerações  astronômicas contidas antes no Canto. Também aqui há uma personalização: é a da noite, que tem pés... Diz Virgílio:   

/.../ “Vienne omai; vedi ch’è tocco
meridïan dal sole, e a la riva

cuopre la notte già col piè Morrocco” (IV, 137-139)

/.../ “Vem agora; vê que o meridiano/ é tocado pelo sol, e na beira do oceano/ a noite já com o pé cobre Marrocos”.


NOTAS         

(1) O nome grego é Bóreas. Cf. ZIMMERMAN, J.E.- “Dictionary of Classical Mythology” . Bantam Books, 1985, p. 27 e 43.

(2) ZIMMERMAN, J.E.- “Dictionary of Classical Mythology”, op cit, p. 202

Amos Nattini
S.Dalí- Ilustração para o canto IV do Purgatório


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Canto III

PURGATÓRIO


Canto III 

       
            Dante nota que Virgílio ficou alterado com a censura de Catão às almas que se esqueceram de seu objetivo de estar ali, enlevados com o canto de Casella. A censura também incluía seu discípulo, e isso significava, indiretamente, uma crítica a ele. Por isso, Dante faz este comentário relativo a seu guia:

o dignitosa coscïenza e netta,
come t’è picciol fallo amaro morso!  (III, 8-9)

ó consciência nobre e pura,/ como uma pequena falta é para ti amargo remorso!

            Essa observação é feita após “seus pés (de Virgílio) abandonarem a pressa” (li piedi suoi lasciar la fretta- v. 10) que tinham, “pela qual todos os atos perdem o seu decoro” (che l’onestade ad ogn’ atto dismaga, - v. 11).

            Virgílio, que representa a razão humana no poema, perde um pouco a sua importância neste segundo reino do além-túmulo. Além de estar sujeito a críticas, ele não saberá dizer, por si mesmo, o caminho a seguir, para escalar a montanha, como se verá adiante (v. 62-63). Pois a razão humana, por si só, não é suficiente, segundo o autor da “Comédia”, para a desejada ascensão espiritual do ser humano. Será necessária também a fé...

            Dante, porém, não pode prescindir de Virgílio. Fica atemorizado, nessa manhã ensolarada do Purgatório, quando constata que só há uma sombra no chão, a sua própria. Olha logo para o lado, para ver se não tinha sido abandonado pelo seu guia.  Mas ele está lá, e lembra a Dante que deixou “o corpo com o qual fazia sombra” (lo corpo dentro al quale io facea ombra- v. 25 ) em Bríndisi, depois trasladado para Nápoles (ele morreu, segundo nota  do comentarista, no ano 19 a.C. e seus restos mortais foram depois transferidos para esta cidade por ordem do imperador Augusto) (1). Naturalmente, só Dante tem sombra, porque é o único vivo ali. Seu corpo assim é um obstáculo à luz solar, o que pode ser entendido, alegoricamente, como o impedimento da matéria não evoluída -- que ainda não sofreu a purgação dos seus pecados --  para a fruição de toda essa luz...

            Todavia, no sentido literal, os versos nos dizem que, a fim de se purificarem, as almas que ali estão sofrerão dor e desconforto em seus corpos “sui generis” (que não produzem sombra e são semelhantes aos dos diversos céus, que não obstaculizam os raios solares):

A sofferir tormenti, caldi e geli
simile corpi la Virtù dispone
che, come fa, non vuol ch’ a noi si sveli. (III, 31-33)

Sofrer tormentos, quentes e frios,/ a Virtude dispõe a tais corpos;/ e como o faz não quer que a nós se revele.
 
            Assim, a visão católica de Dante-autor faz Virgílio dizer que o ser humano não deve querer saber demais: ele deve contentar-se em conhecer só o que as coisas são, a argumentação “quia” (v. 37) dos efeitos da criação divina, e não o porquê dessa criação, as suas causas últimas, que é exclusividade de Deus (2).

Matto è chi spera che nostra ragione
possa trascorrer la infinita via
che tiene una sustanza  in  tre persone.

State contenti, umana gente, al quia;     (III, 34-37)

Louco é quem espera que a nossa razão/ possa percorrer a infinita via/ que mantém unidas em  uma só substância três pessoas.
Contentai-vos, humana gente, só com o quia;

            Caso tivéssemos todas as respostas, seríamos como Deus (que é três e não um, i.e. a Santíssima Trindade) e “não teria sido necessário Maria parir” (mestier non era parturir Maria- v. 39), pois Adão e Eva foram expulsos do Éden por quererem saber demais. Em busca da cabal explicação, já se debruçaram os maiores pensadores da Antiguidade (são citados, nominalmente Aristóteles e Platão,  v. 43), sem que obtivessem fruto disso (sanza frutto- v. 40)...   


G.Doré-  ilustração para o canto III

            Chegando ao pé da montanha do Purgatório, os dois poetas ficam admirados com o que veem: uma parede de rocha tão íngreme que as falésias da Riviera italiana (entre Lerice e Turbìa)  pareciam “uma escada/ fácil e ampla, comparada àquela” (/.../ una scala,/ verso di quella, agevole e aperta- v. 50-51).  É então que Dante – vendo aproximar-se, a passos muito lentos, um bando de almas – sugere a Virgílio aconselhar-se com elas sobre o melhor caminho a seguir, “se não puderes fazê-lo por ti mesmo” (se tu da te medesmo aver nol puoi- v. 63) (Virgílio estava de cabeça baixa, absorto em suas reflexões sobre como escalar aquela montanha, “de modo que possa subir quem não tem asas” ( sì che possa salir chi va sanz’ala - v. 54) ). O mestre segue então o conselho de seu discípulo.  E indaga logo aos espíritos o melhor caminho, “pois perder tempo a quem mais sabe mais desagrada” (ché perder tempo a chi più sa più spiace- v.78).

            Esses espíritos de andar muito lento arrependeram-se tardiamente de  seus pecados no final da vida. Por isso, também, seu passo é tardo.  

            Ocorre aqui mais uma comparação, esta relacionada ao meio rural: Dante usa a imagem das ovelhas saindo do aprisco, aos poucos, ao referir-se ao comportamento daquele “afortunado” bando de espíritos, que se aproxima vagarosamente dos dois poetas. Os da frente param e todos os que vêm atrás, como as ovelhas, fazem o mesmo, sem saber o porquê. Os que vêm primeiro param, intrigados, ao ver que Dante faz sombra. Virgílio então, sem que isso lhe seja perguntado, apressa-se em dar-lhes a razão, afirmando também:

Non vi maravigliate, ma credete
che non sanza virtù che da ciel vegna
cerchi di soverchiar  questa parete.        (III, 97-99)

Não vos espanteis, mas crede/ que não é sem força vinda do céu/ que ele procura vencer esta parede.

            Note-se a incidência de sons duros, ásperos, nestes versos (te, que, cre) certamente empregados pelo poeta para salientar a aspereza da parede de rocha.

            Após as palavras de Virgílio, aqueles espíritos, imediatamente, indicam o caminho a seguir.

            Um deles pede a Dante que, sem se deter em sua marcha para o alto, volte sua face para ele, para ver se o reconhece.  “Louro era, e belo, e de gentil aspecto,/ mas uma das sobrancelhas um golpe (de espada) havia dividido   (biondo era e bello e di gentile aspetto,/ ma un de’ cigli un colpo avea diviso-  v.107-108- cf. o polissíndeto).  Ante a resposta negativa do poeta, ele diz, que é Manfredo, neto da imperatriz Constança. Trata-se do rei da Sicília e da Apúlia, gibelino e epicurista, filho natural do imperador Frederico II, que foi morto em 1266 por Charles d’Anjou, aliado do papa Clemente IV,  na campanha  de Benevento (3).


Manfredo 

            Manfredo, que é quem fala a partir do v.103 até o fim do Canto, pede a Dante que quando retornar a este mundo informe a sua filha (também chamada Constança, como a bisavó) onde ele está agora, quer dizer, apesar de ter sido excomungado e de ter cometido pecados “horríveis” (v.121), não foi para o Inferno e sim veio para cá, para o Purgatório, a caminho da salvação, portanto:

Poscia ch’io ebbi rotta la persona
di due punte mortali, io mi rendei,
piangendo, a quei che volontier perdona. (III, 118-120)

Depois que meu corpo foi transpassado/ por dois golpes mortais, eu me rendi,/ chorando, Àquele que perdoa de bom grado.

            Ele, que integra o bando dos que se arrependeram muito tarde na vida, pertence assim ao subgrupo dos “contumazes” ou desobedientes da Igreja, i.e. os excomungados.  Mas a condenação da Igreja não prevalece sobre a Bondade Divina, que “tem braços tão grandes/ que aceita quem quer que se volte para ela” ( /.../ ha sì gran braccia,/ che prende ciò che si rivolge a lei- v. 122-123).  

            Por causa da excomunhão, o “pastor di Cosenza” (o bispo) mandou que seus restos mortais fossem exumados de onde estavam, perto de Benevento, e jogados às margens do rio Verde, fora dos limites do reino de Nápoles e dos Estados Pontifícios (4):

Or le bagna la pioggia e move il vento
di fuor dal regno, quasi lungo ‘l Verde,
dov’e’ le trasmutò a lume spento.   (III, 130-132)

Agora a chuva banha meus ossos, e o vento os move/ para fora do reino, ao longo do Verde,/ aonde ele os transportou a círios apagados,
           
            Os restos mortais foram assim transportados a “círios apagados” (a lume spento- v. 132) porque esse era o tratamento usual da época aos que recebiam a excomunhão (5). A propósito, essa sugestiva expressão -- “A lume spento”, é o título do primeiro livro de poemas de Ezra Pound.

            O que Manfredo quer, na realidade, ao encarregar Dante daquela missão é que sua filha, sabendo em que reino do além-túmulo ele está, ore por ele, pois assim abreviará a sua permanência ali. Segundo as normas celestes,  os que foram excomungados devem permanecer no Purgatório trinta vezes o tempo que permaneceram em “contumácia” com a Igreja,

/.../ se tal decreto
più corto per buon prieghi non diventa. (III, 140-141)  

se tal decreto/ não se tornar mais curto pelas boas preces.

            O último verso do Canto (v. 145) reafirma essa característica do Purgatório: 

ché  qui per quei di là molto s’avanza. (III, 145)


pois aqui, pelos que estão lá, muito se avança.



NOTAS


(1) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume II: Purgatory”. Translated with an Introduction, Notes, and Commentary by Mark Musa. Penguin Books, 1985, p. 34

(2) Segundo comentário ao v. 37 do Canto III in SAYERS, Dorothy L.—“Dante: The Divine Comedy-  II. Purgatory”, Aristóteles e os escolásticos distinguiam a demonstração quia da demonstração propter quid. No primeiro caso, o conhecimento volta-se para o que uma coisa é, pela argumentação a posteriori, partindo-se do efeito para a causa; no outro caso, o conhecimento se refere ao porquê uma coisa é como é, e a argumentação é a priori, da causa para o efeito. (Cf. SAYERS, Dorothy L.—“Dante: The Divine Comedy-  II. Purgatory”. Translated by Dorothy L. Sayers.  Penguin Classics, 1963, p. 93). 

(3) SAYERS, Dorothy L.—“Dante: The Divine Comedy-  II. Purgatory”- op cit, p. 94.

(4) Id., ib, p. 94

(5) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”. Bantam Books, 1984- p. 324



Amos Nattini 

S.Dalí- Ilustração para o canto III do Purgatório

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Canto II

PURGATÓRIO


Canto II 

           
            Nos versos iniciais deste Canto, para dizer que nascia o sol no Purgatório, Dante usa uma longa perífrase. Refere-se aí a Jerusalém, situado no mesmo meridiano que a montanha do Purgatório (embora diametralmente oposta a esta), e também à noite, que se opõe ao sol, ou à aurora personificada (ela é a deusa do amanhecer na mitologia clássica) presente nessa hora naquele lugar. De onde Dante estava, ele a vê mudando de cor, à medida que o tempo passa:

/.../ le bianche  e le vermiglie guance,
là dov’ i’ era, de la bella Aurora
per troppa etate divenivan rance.   (II, 7-9)

/.../ do lugar onde eu estava,/ as faces brancas e rubras da bela Aurora/ por muita idade tornavam-se amareladas.

            A noite também é personificada. Os versos afirmam que a Balança (ou Libra, a constelação) “cai de suas mãos quando ela vence o dia” (che le caggion di man quando soverchia- v. 6), quer dizer, quando a primavera atual passar, e a extensão da noite for maior que a do dia (i.e.“vencê-lo”), no equinócio de outono no hemisfério Norte. A noite então não estará mais em Libra e sim o sol  (no equinócio de primavera a noite é aproximadamente igual ao dia em extensão, o sol está em Áries e a noite, oposta a ele, está em Libra) (1).  Essa passagem dá uma ideia de como Dante faz uso, às vezes, do saber astronômico/astrológico de sua época...  


G.Doré- O barco

            Os dois poetas estão junto ao mar, na base da montanha do Purgatório. Dante diz que sua visão é atingida então por uma luz muito forte e veloz, que vem do mar, e também por uma alvura intensa, que vai se definindo aos poucos, começando por identificar-se como as asas de um anjo. Trata-se de um “anjo de Deus” (angel di Dio- v.29), um “barqueiro celestial” (celestial nocchiero- v. 43), que traz mais de cem almas para o Purgatório (v.45). Ele as transporta desde a foz do Tibre (v. adiante, v. 101), o rio que banha Roma, a cidade sagrada para Dante, sede da Igreja e do Império, em cujo âmbito geográfico e de dominação política nasceu Jesus Cristo. Para esse local vão os mortos que se arrependeram dos pecados em tempo. Eles aguardam ali o seu traslado, do hemisfério Norte onde está Roma, para a montanha do Purgatório, no hemisfério Sul.

            Quando Virgílio reconhece o timoneiro, manda rapidamente seu discípulo ajoelhar-se e juntar as mãos, pois trata-se de um anjo de Deus. À medida que este se aproxima dos dois, Dante é obrigado a abaixar os olhos, por não suportar a intensidade da luz que dele emanava:

Poi, come più e più verso noi venne
l’uccel divino, più chiaro appariva;
per che l’occhio da presso nol sostenne,

ma chinail giuso; /.../   (II, 37-40)

Depois, como mais e mais se aproximava de nós/ a ave divina, mais clara parecia;/ de modo que meus olhos não podiam sustentar tal visão/ e fui forçado a abaixá-los; /.../


G.Doré- O barqueiro celestial

            Os comentaristas destacam o sentido alegórico desses versos. Dante é obrigado a baixar os olhos porque ainda não está em condições de defrontar-se com a Graça (2). No final do canto, quando Catão reaparece para censurar os recém-chegados, ele vai dizer a eles:  “Correi ao monte a despojar-vos da casca” (Correte al monte a spogliarvi lo scoglio- v. 122), entendendo-se assim que para ascender ao Paraíso e desfrutar da visão da bem-aventurança é necessário toda uma purgação dos pecados que é feita justamente neste secondo regno. A propósito, o termo scoglio, traduzido normalmente por “casca”, em sua forma arcaica é o mesmo que scoglia e significa pele de cobra, que o réptil abandona todos os anos (3).  Assim também o ser humano, para Dante, deve perder tal pele, renovar-se, vale dizer, purificar-se, para evoluir espiritualmente. Esse é o sentido dessa bela metáfora.

            Os mais de cem espíritos que chegam no barco cantam em uníssono (mostrando a sua união por um ideal comum) o salmo 133 que começa com “In exitu Isräel de Aegypto” (v. 46). O salmo é sobre a saída dos judeus do Egito, rumo à Terra Prometida. Aqui também deve ser ressaltado o sentido alegórico: assim como os judeus rumam para esse destino, livres da escravidão no Egito, aos recém-chegados está prometida a sua salvação, o acesso ao Paraíso, uma vez purgados dos pecados, ou seja, libertados deles.   

            O anjo deposita-os na praia, após fazer o sinal da cruz sobre eles, e retorna veloz.  Eles ficam por ali, olhando em torno, “como quem experimenta coisas novas” (come colui che nove cose assaggia- v. 54), uma comparação. Alguns deles perguntam a Virgílio qual é o caminho para subir o monte. Mas este lhes responde que os dois poetas também não conhecem o lugar, que são peregrinos como eles. As almas dão-se conta que Dante ainda é vivo, pela sua respiração, e ficam espantadas com isso, aglomerando-se diante dele. E ocorre aqui uma comparação interessante. A atração que esse fato exerce sobre aquelas almas é semelhante à do mensageiro que traz notícias, portando um ramo de oliveira (antigo costume, símbolo de boas notícias):

E come a messager che porta ulivo
tragge la gente per udir novelle,
e di calcar nessun si mostra schivo,

così al viso mio s’affisar quelle
anime fortunate tutte quante,
quasi oblïando d’ire a farsi belle. (II, 70-75)

E como um mensageiro que porta um ramo de oliveira/ atrai as pessoas para ouvir as novas,/ não se esquivando à aglomeração,/ assim fitaram o meu rosto aquelas/ almas afortunadas, todas elas,/ quase esquecendo de irem fazer-se belas.

            É de se destacar, no v. 75, a identificação da ética com a estética:  as almas libertas do pecado tornam-se belas...    

            Dante então vê uma sombra avançar em sua direção, com grande afeto,  para abraçá-lo. E, ao fazer o mesmo, admira-se porque nas três vezes que tentou fazer isso, suas mãos vieram dar no seu próprio peito (v.80-81), quer dizer, o amigo era apenas uma aparência, sem um corpo sólido. Essa é uma passagem impressiva que Dante-autor inclui para certamente nos relembrar da natureza sobrenatural do ambiente em que eles estão agora. Essa passagem é imitada de uma outra, da “Eneida” de Virgílio, que é assim homenageado pelo poeta florentino.  (4)  

            A sombra em questão é o músico Casella, amigo e colaborador de Dante, que se supõe colocou em música várias de suas “canções”. Dante, ao responder a uma pergunta dele, afirma que faz esta viagem “a fim de retornar/ para lá de onde eu sou”:

“Casella mio, per tornar altra volta
là dov’ io son, fo io questo viaggio” ,
diss’ io; /.../                                         (II, 91-93)


            Isso tem um sentido ambíguo, segundo os comentaristas, pois significa tanto o que é dito literalmente como que Dante acreditava que virá (retornará) ao Purgatório após a sua morte.  Aliás, já antes, no v.16, ele expressara seu desejo de ver de novo aquela luz intensa e veloz, a do anjo de Deus trazendo as almas para o Purgatório:

cotal m’apparve, s’io ancor lo veggia,
un lume per lo mar venir sì ratto,
che ‘l muover suo nessun volar pareggia (II, 16-18)  

assim me pareceu – e possa eu vê-la de novo --/ uma luz vinda pelo mar tão rapidamente/ que nenhum voo de pássaro a igualaria

            Casella lhe explica depois que foi recolhido lá “onde a água do Tibre se salga” (dove l’acqua di Tevero s’insala- v. 101), quer dizer, onde o rio romano desemboca no mar, e que o anjo de Deus sempre recolheu ali aqueles que não foram condenados ao Inferno (aqui referido pelo rio utilizado por Caronte, uma metonímia):

A quella foce ha elli  or dritta l’ala,
però che sempre quivi si ricoglie
qual verso Acheronte non si cala. (II, 103-105)

Àquela foz ele endireita a asa/ uma vez que sempre ali se recolhem/ aqueles que não descem ao Aqueronte.

            Note-se que, no início tanto do Inferno quanto do Purgatório as situações são equivalentes. Iniciam pelo transporte dos mortos, uns desesperados e outros, esperançosos de salvação. Porém há diferenças não só quanto à figura do barqueiro mas também quanto ao comportamento das almas transportadas.

            Na sequência, Dante pede a Casella para ouvir o canto deste “que costumava aquietar os meus anseios” (che mi solea quetar tutte mie voglie- v.108) Casella então começa a cantar “Amor que na mente me fala” (Amor che ne la mente mi ragiona- v. 112), início de uma “canzone” de Dante que integra seu livro “Convivio” (“Banquete”).  Ele canta tão suavemente que atrai a atenção de todos que estão ali, esquecidos do  propósito de sua jornada, o que provoca a repreensão do “veglio onesto”.  Dante via a Arte como capaz de aliviar as nossas aflições, como mostra a observação que faz a Casella, ao formular o seu pedido. Mas certamente acreditava que esse era um conforto passageiro. O conforto permanente para a sua alma inquieta só seria dado num plano superior, transcendental, quando a estética se fundisse com a ética, no Paraíso. É por isso que ele e seu mestre fazem o mesmo que o bando de espíritos, após serem repreendidos por Catão, vale dizer, também partem rapidamente em busca da montanha do Purgatório (v. 133), interrompendo o desfrute do canto de Casella.   

            O canto conclui com outra bela imagem (a partir do v. 124). Dante compara o que ocorre em seguida à censura de Catão -- a rápida dispersão daquele bando de espíritos, em busca da encosta da montanha -- com pombos que inicialmente estão bicando grãos ou ervas e de repente, ao surgir uma ameaça, alçam voo, deixando para trás sua comida.  
       

NOTAS

(1) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”. Bantam Books, 1984- p. 321

(2) ZOLI, M e ZANOBINI, F- Dante Alighieri- “La Divina Commedia”- a cura di M. ZOLI e F. ZANOBINI. Firenze: Bulgarini,  2013-  p. 406  

(3) Id., ib., p. 409

(4) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”, op cit, p. 321-322.



Amos Nattini
S.Dalí- Ilustração para o canto II do Purgatório.