quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Canto X

PURGATÓRIO


Canto X


            Após entrarem no Purgatório, Dante e Virgílio seguem por um caminho tortuoso, difícil, entre as rochas que avançam e se retraem “como faz a onda que foge e se aproxima” (sì come l’onda che fugge e s’appressa- v. 9). Mais adiante, essa árdua trilha é associada a uma outra imagem, a do “buraco de agulha” (cruna- v.16), a primeira das diversas referências bíblicas implícitas do Canto X  (neste caso, a expressão nos remete às palavras de Cristo de que é mais fácil um camelo entrar no buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus) (1). Como se sabe, a Bíblia e a mitologia clássica são duas fontes permanentes de referência para o poeta. 

            Os comentaristas alertam para o contraste entre essa entrada difícil no Purgatório e a facilidade com que se entra no Inferno. Por ser difícil, poucos são os que por ela entram. Sua porta é “pouco usada porque o mau amor das almas/ faz parecer direita a via torta” (che ‘l mal amor de l’anime disusa,/ perché fa parer dritta la via torta- v.2-3). O “mau amor” é o amor ao pecado, conforme Mandelbaum, pois na “Comédia” o amor está na origem de todas as ações humanas, quer sejam virtuosas ou não (2). O Purgatório é também reino dos martírios, da purificação dos espíritos, em que os pecadores todavia mantêm a esperança, ao contrário do Inferno, que é o lugar dos desesperados. Enquanto este existirá para sempre, aquele é temporário, tanto em relação a si mesmo (não mais existirá após o Juízo Final) como em relação aos tormentos do pecador, pois seu período de purgação é limitado no tempo, depende da “dívida” do pecador para com Deus.     

            Vencido o “buraco de agulha”, Dante e seu mestre saem num espaço aberto acima, onde o monte recua e forma um terraço, que  “mediria três vezes um corpo humano” (misurrebbe in tre volte un corpo umano- v.24) de largura entre a sua extremidade e a encosta de pedra. E essa largura é uniforme, até onde a vista do poeta-narrador alcança, à esquerda e à direita. Na realidade, o terraço contorna a montanha do Purgatório. Dante-autor o chama de “cornija” (cornice- v.27), um termo que ele empresta da arquitetura clássica (3). Dante-personagem percebe que aquela encosta alta, impossível de ser escalada, era de mármore branco, em que algumas cenas haviam sido entalhadas com altíssima perfeição. O mármore havia sido “adornado/ de entalhes tais que derrotariam/ não apenas Policleto/ mas a própria natureza” (/.../ e addorno/ d’intagli sì, che non pur Policleto/ ma la natura lì avrebbe scorno- v. 31-33). Policleto é o famoso escultor grego do século V a.C. e a natureza, para Dante, é obra de Deus (4). Esses baixos-relevos também são fruto da arte divina, mas por serem do outro mundo, ou do Além, superam, na visão do poeta, o que Deus criou de mais belo na natureza neste nosso mundo.  

            Três são as cenas ali esculpidas, conforme o desenrolar deste Canto, todas elas exemplos de humildade, uma virtude oposta ao pecado do orgulho, em que incorreram, como se verá, os que habitam esta 1ª. cornija ou terraço.

            A primeira cena refere-se à Anunciação, mostrando a visita do anjo a Maria para lhe dizer que seria a mãe de Cristo. Ele obedece ao decreto divino “que abriu o céu após longo interdito” (ch’aperse il ciel del suo lungo divieto- v. 36). A representação do anjo é “tão veraz” (sì verace- v.37) “que não parecia ser uma imagem muda” (che non sembiava imagine che tace-v.39). Também a de Maria, “aquela/ que virou a chave para liberar o alto amor” (/.../ quella/ ch’ ad aprir l’alto amor volse la chiave-  v.41-42), ou seja aquela que gerou Cristo, o qual segundo a mitologia católica abriu as portas do céu aos homens, fechadas desde a expulsão de Adão e Eva do Paraíso. A representação é tão perfeita que os personagens parecem falar. Assim, o anjo parece saudar Maria e esta parece lhe responder com as palavras bíblicas, de submissão à vontade do Senhor: “Eis a serva de Deus” (“Ecce ancilla Dei”- v. 44) (5).
 
            Atendendo a uma recomendação de Virgílio, Dante observa “uma outra história gravada na rocha” (un’altra storia ne la roccia imposta- v. 52), também de inspiração bíblica: o mármore esculpido mostrava “o carro e os bois trazendo a arca santa” (lo carro e ‘ buoi traendo l’arca santa- v.56) (a Arca da Aliança) e as   pessoas presentes estavam divididas em sete coros. Na frente da arca, dançava Davi, “menos que rei” porque agia sem a dignidade do cargo, e “mais que rei”, porque sua humildade era bem vista pelo Senhor:  

Lì precedeva al benedetto vaso,
trescando alzato, l’umile salmista,
e più e men che re era in quel caso.   (X, 64-66)

Lá precedia o bendito vaso,/ dançando com as vestes levantadas, o humilde salmista, / e era então mais e menos que rei.

            Essa manifestação espontânea de Davi porém não agradou Micol, filha de Saul, a sua orgulhosa esposa (5). Dante nessa passagem faz uma menção interessante (sinestésica, pois trata-se, como se verá abaixo, de um “falar -- ou cheirar -- visível”) a dois de seus sentidos: enquanto o da visão – dada a excelência da representação – “ouvia” as pessoas cantarem, o da audição o contradizia; da mesma forma, ao mencionar a fumaça dos incensos a visão, que “sentia” seu perfume, era negada pelo olfato:

Dinanzi parea gente; e tutta quanta,
partita in sette cori, a’ due mie’ sensi
faceva dir l’un “No”, l’altro “Sì, canta”.

Similemente, al fummo de li ‘ncensi
che v’era imaginato, li occhi e ‘l naso
e al sì e al no discordi fensi.              (X, 58-63)

Na frente, apareciam as pessoas; e todas elas,/divididas em sete coros, a dois dos meus sentidos/ faziam um dizer  “Não” , e o outro “Sim, elas cantam”.
Da mesma forma, a fumaça dos incensos/ que ali era mostrada fazia discordar/ os olhos do nariz com sim e não.  

            Depois, uma terceira cena ilustrativa da humildade lhe atrai a atenção. Entretanto, Dante não se expressa nestes termos meus, prosaicos, mas afirma, em sua linguagem peculiar, que, além de Micol, “uma outra história” lhe “branquejava” (mi biancheggiava- v. 72). Realçando desse modo a cor do mármore, tratando-a como se brilhasse, produz, por meio do estranhamento linguístico, o efeito desejado, que é acentuar o caráter especial e estranho ao nosso mundo dessas cenas, reforçando a sua singularidade, já  presente no “falar visível” (visibile parlare- v. 95).

G. Doré- As esculturas  
             Na terceira cena, a representação é elaborada de tal forma que faz Dante ver/ouvir todo um diálogo entre o imperador Trajano e uma pobre viúva, cujo filho foi assassinado, diálogo esse reproduzido ao longo dos versos 83-93.  Ela detém o Imperador, acompanhado de muitos cavaleiros, quando estão prestes a partir, com os estandartes romanos tremulando ao vento (“e as águias em campo de ouro/ sobre esses moviam-se ao vento”: /.../  e l’aguglie ne l’oro/ sovr’ essi in vista al vento si movieno- v. 80-81). Ela, aflita, pede que ele faça justiça. Após ela muito insistir, Trajano cede ao seu apelo. Decide adiar a viagem para primeiro cumprir o seu dever de imperador:

/.../ “Or ti conforta; ch’ ei convene
ch’ i’ solva il mio dovere anzi ch’ i’ mova:
giustizia vuole e pietà mi ritene”.               (X, 91-93)

/.../ “Agora, consola-te; convém/ que eu cumpra o meu dever antes de partir: / a justiça o quer e a piedade me retém”.  

            Nos versos 74-75, o poeta já mencionara essa ação nobre, “gloriosa” de Trajano, “cujo valor / levou Gregório a obter sua grande vitória” (/.../ il cui valore/ mosse Gregorio a la sua gran vittoria). Segundo uma lenda, S. Gregório (papa do ano 590 ao 604),  pediu aos céus que ele fosse retirado do Inferno (i.e., do Limbo) e levado para o Paraíso, no que foi atendido. Essa foi a sua “grande vitória” referida no v. 75 (7)  

            O artífice dessas três cenas esculpidas no mármore branco é o próprio Deus, conforme a clara afirmação destes versos:

Colui che mai non vide cosa nova
produsse esto visibile parlare,
novello a noi perché qui non si trova.   (X, 94-96)

Aquele que jamais viu coisas novas/ produziu esse falar visível,/ novo para nós porque aqui não se encontra.

            Na sequência, Dante-autor fala com o leitor, apelando para que este não se desvie do bom caminho ao saber o que ele está prestes a lhe contar, ou seja, sobre o martírio dos que ali padecem (mas “no pior dos casos, ele não poderá ir além da grande sentença”: /.../ al peggio/ oltre la gran sentenza non può ire- v. 110-111, i.e. o martírio não irá além do Juízo Final).  Virgílio dissera há pouco a seu discípulo que se aproxima agora muita gente a passos lentos, e que eles lhes orientarão em sua subida. Dante percebe então que algo vem se movendo na direção deles.  Diz que não parecem pessoas, mas não sabe dizer o que seja. Virgílio lhe manda olhar fixamente e ver o que há abaixo daquelas pedras. Dante vê então os penitentes, arcados até o chão com o peso delas. Ele vê “como cada um se pune” (come ciascun si picchia- v.120). Seu sofrimento, ao contrário dos condenados no Inferno, é desejado, uma vez que eles querem se purificar para poderem entrar no Paraíso. Uns estavam mais curvados do que outros, pois o peso das pedras é variável, i.e. a pena assumida também varia.  
            Virgílio, comovido, dirige esta apóstrofe aos cristãos que incorreram no pecado do orgulho, o pecado expiado neste terraço:  

O superbi cristian, miseri lassi,
che, de la vista de la mente infermi,
fidanza avete ne’ rettosi passi,

non v’accorgete voi che noi siam vermi
nati a formar l’angelica farfalla,
che vola a la giustizia sanza schermi?    (X, 121-126)


Ó cristãos soberbos, míseros, exaustos,/ doentes da vista da mente,/ que pondes vossa confiança em andar para trás,
não percebeis que somos vermes/ nascidos para formar a angélica borboleta,/ que voa rumo à justiça sem defesas?

            Dante aqui explora a imagem sugestiva do verme que, em sua evolução, resulta na borboleta, associando o primeiro ao corpo humano (com as conotações relativas à sua decomposição após a morte)  e a segunda à alma. Tal imagem é citação implícita de Santo Agostinho, conforme assinala nota a esses versos numa tradução da “Comédia” para o espanhol (8).
            Logo a seguir, Dante faz outra comparação. Ele, como personagem,  ao ver os penitentes, os compara a certas mísulas (outro termo da Arquitetura) (9), em que, às vezes, “se vê uma figura/ juntar os joelhos ao peito” (/.../ una figura/ si vede giugner le ginocchia al petto- v. 131-132) e que, embora sendo irreais, nos fazem sofrer verdadeiramente. Com mais razão ele se condói ao ver ali os que  purgam o pecado do orgulho.


Salvador Dalí 

NOTAS


(1) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”. Bantam Books, 1984- p.340

(2) Id. ib, p. 340.

(3) A cornija é assim definida no dicionário Houaiss: “1. na arquitetura clássica, a parte superior do entablamento (...) que assenta sobre o friso 2. moldura saliente que serve de arremate superior à fachada de um edifício, ocultando o telhado e impedindo que as águas escorram pela parede”

(4) MANDELBAUM, Allen- op cit, p.340

(5) MARTINS, Cristiano-  “A Divina Comédia- Dante Alighieri”. Tradução, introdução e notas de Cristiano Martins-  5ª edição. Belo Horizonte: Itatiaia, 1989- v. 2, p.93

(6) Id. ib, p. 96

(7) MANDELBAUM, Allen- op cit, p.341

(8) “Dante Alighieri- La Divina Comedia”. Buenos Aires: Centro Editor de Cultura, 2012, p.215. A nota deve ser de Ángel Crespo, que consta aí erradamente como tradutor. Essa tradução para o espanhol é, na realidade, de Luis Martínez de Merlo, conforme consta em  “Divina Comedia”. Edición de Giorgio Petrocchi. Ediciones Cátedra (Grupo Anaya, S.A), Madrid, 14ª edición, 2012.  

(9) Mísula é “o ornato saliente preso à parede, estreito na parte inferior e largo na superior, que sustenta um arco de abóboda, cornija, púlpito, suporte para vaso, estátua etc”. (cf. “Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa”. 1ª. ed.- Rio de Janeiro: Objetiva, 2002).


 
Amos Nattini

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Canto IX


PURGATÓRIO


Canto IX


            Ao final deste Canto Dante vai entrar no Purgatório propriamente dito. Até aqui ele, guiado por Virgílio (e também por Sordello, mais recentemente), vem percorrendo o Antepurgatório, no qual estão os que se arrependeram tardiamente. Essa categoria abrange, como vimos, os excomungados (Canto III), os indolentes (Canto IV), os que tiveram morte violenta (Cantos V e VI) e os monarcas negligentes (Cantos VII e VIII). Como demoraram para se voltar a Deus, assim também deverão agora aguardar ali, por um determinado período de tempo (variável, dependendo do caso), o momento certo de entrar no Purgatório  propriamente dito para iniciar a sua purificação.

Gustave Doré
             Este Canto IX inicia tratando do sonho que Dante teve, em cuja narração ocorrem várias referências mitológicas. Titão é mencionado logo de início, um mortal amado pela Aurora, que pediu aos deuses imortalidade para ele, mas esqueceu de pedir também juventude eterna, de modo que envelhecia constantemente (por isso é chamado “velho” Titão no v. 1). A interpretação dos versos iniciais é controvertida entre os estudiosos do poema. Mas na realidade, esses versos servem apenas para indicar que horas eram então ali: quase 9:00 da noite (do domingo de Páscoa de 1300). Pela referência à aurora (personalizada) e à constelação do Escorpião (indiretamente, por meio da menção a um “frio animal que com a cauda ataca os homens” (freddo animale/ che con la coda percuote la gente- v. 5-6), no hemisfério Norte, deduz-se a hora no hemisfério oposto (1). Para essa definição da hora, leva-se em conta também que a noite abrange doze horas, iniciando às 6:00, às quais devem ser adicionadas mais três horas, aproximadamente, conforme estes versos:  

e la notte, de’ passi con che sale,
fatti avea due nel loco ov’ eravamo,
e ‘l terzo già chinava in giuso l’ale;    (IX, 7-9)

e a noite em sua marcha ascendente,/ dera dois passos no lugar onde estávamos,/  e já abaixava as asas para o terceiro;

                 (Note-se a metáfora implícita associada à noite, pois esta tem asas...)

            Dante, vencido pelo sono, deita na grama e adormece. E sonha. No relato desse sonho ocorrem mais três referências mitológicas, uma indireta e as outras duas explícitas. A primeira, quando se refere à hora, “perto da manhã, em que a andorinha/ começa seus tristes lamentos,/ talvez em memória de seus antigos sofrimentos”:

Ne l’ora che comincia i tristi lai
la rondinella presso a la mattina,
forse a memoria de’ suo’ primi guai   (IX, 13-15) 

            O poeta faz aqui uma alusão indireta à história de Filomela e Prócris, uma transformada em andorinha e a outra em rouxinol. Filomela fora violentada pelo cunhado Tereus, marido de Prócris, que depois cortou a sua língua para que ela não contasse o que acontecera. Para vingarem-se dele, as duas deram de comer a Tereus a carne de seu próprio filho, que ao saber disso tentou matá-las. No final da história, os três são transformados em pássaros, inclusive Tereus (2). Mais adiante, ocorrem as duas referências mitológicas explícitas, que são feitas a Ganimedes, no v.22, e a Aquiles, no v. 34.

            Naquela hora “perto da manhã”, no sonho, diz Dante, uma águia “com penas de ouro” (con penne d’oro- v.20) desceu do céu como um raio e o arrebatou para o alto, até a esfera do fogo (entre a Terra e a Lua, conforme a cosmovisão do poema). Dante sentiu-se como Ganimedes, filho do rei de Troia, que foi levado por uma águia “para o sumo consistório” (al sommo consistoro- v. 24), i.e. o Olimpo, onde viviam os deuses, pois Júpiter, que se impressionara com a beleza do efebo, queria-o junto deles (3).  

G.Doré- A águia

            O calor na esfera de fogo era tanto que fez Dante acordar-se. E ele diz que se sentiu então como Aquiles, após voltar a si, sem saber onde estava. Segundo a lenda, a mãe de Aquiles o furtou do centauro Quíron, seu tutor, e o levou dormindo para a ilha de Squiros. A mãe, agindo assim, procurava evitar que se cumprisse uma profecia que previa a sua morte na guerra de Troia. Todavia, mais tarde Aquiles seria convencido pelos gregos Ulisses e Diomedes a dela participar (4). E nela pereceria.   

            Ao acordar, Dante não sabe onde está, como foi dito. Virgílio está ao seu lado mas Sordello e os outros (Nino Visconti, Conrado Malaspina) ficaram para trás. O autor de “Eneida” lhe diz que está agora junto à entrada do Purgatório (Tu se’ omai al purgatorio junto- v. 49). Virgílio explica que, enquanto dormia, veio uma dama do céu e assim falou: “Eu sou Lucia;/ deixai-me arrebatar este que dorme;/ assim o ajudarei na sua via! “ (“I son’ Lucia; / lasciatemi pigliar costui che dorme;/ sì l’ agevolerò  per la sua via”- v. 55-57).  Ela o trouxe para cima, quando o dia clareou, e Virgílio seguiu seus passos. Trata-se de Santa Lúcia, por quem Dante era devoto (a mesma que anteriormente, no início da “Comédia”  atendera ao apelo de Maria e fora falar com Beatriz, que enviou Virgílio para servir de guia dele, então perdido na “selva escura” do pecado). Lúcia aqui representa a Graça divina, que, na visão do poeta, é oferecida aos homens que buscam a sua salvação...

            Os versos seguintes, até o final do Canto, exploram diversos aspectos da alegoria do sacramento da penitência, um requisito necessário para a entrada de Dante no Purgatório. Para descrevê-los, o poeta faz uma pausa no andamento do Canto para dirigir-se diretamente ao leitor, recurso que, aliás, ele usa com certa frequência, o que torna o poema menos formalista e mais cativante:

Lettor, tu vedi ben com’io innalzo
la mia matera, e però con più arte
non ti maravigliar s’io la rincalzo.    (IX, 70-72)

Leitor, bem vês como eu elevo agora/ minha matéria; e por isso não te admires/ se eu a escoro com mais arte.

            Dante, acompanhado de Virgílio, aproxima-se daquilo que lhe pareceu antes “uma muralha fendida por uma brecha” (pur come un fesso che muro diparte- v. 75) e constata o que vê:

vidi una porta, e tre gradi di sotto
per gire ad essa, di color diversi,
e un portier ch’ancor non facea motto.

E come l’occhio più e più v’apersi,
vidil seder sovra l’grado sovrano,
tal ne la faccia ch’io non lo soffersi;

e una spada  nuda avëa in mano,
che reflettëa i raggi sì ver’ noi,
ch’io dirizzava spesso il viso in vano.   (IX, 76-84)

vi uma porta, e abaixo dela três degraus/ para acessá-la, de cores diversas, e um porteiro que ainda não falara. 
E como os olhos mais e mais abri,/ eu o vi sentado sobre o degrau mais alto,/ o brilho do seu rosto era tal que eu não podia suportar;
e uma espada nua tinha na mão/ que refletia tanto os raios sobre nós/ que em vão várias vezes tentei sustentar o olhar.     

            (Note-se a sonoridade do v. 80 que se apoia numa aliteração)  

            Esse “porteiro” é, na realidade, o anjo guardião da porta de entrada do Purgatório. Ele, na interpretação dos comentaristas, é o representante da Igreja, pois afirma que detém as chaves de Pedro (“De Pedro as recebi”- Da Pier le tegno; /.../- v. 127), trazendo à lembrança as palavras de Cristo a S. Pedro, conforme o Evangelho de Mateus (5). Dante, por mais que quisesse, não conseguia sustentar o olhar em direção do anjo, dado o seu brilho ofuscante e também da espada que tinha em mão, a qual refletia os raios do Sol -- símbolo de Deus. A Igreja assim reflete a vontade de Deus e a sua justiça, esta representada pela espada.

G. Doré- A entrada do Purgatório 

            O anjo guardião detém na realidade duas chaves, uma de ouro e outra de prata (L’una era d’oro e l’altra era d’argento- v. 118), sendo a primeira interpretada como a do poder de absolvição dado à Igreja e a outra, a do discernimento daquele que usa tal poder, i.e. o padre-confessor.  

            O anjo interpela os dois poetas, perguntando pela sua “escolta” (aparentemente os espíritos, para ali entrarem, devem ser acompanhados por outros anjos). Virgílio explica que foi uma dama do céu quem lhes indicou, há pouco, o local daquela porta. O porteiro então, de modo cortês, pede para eles avançarem.   

            Dante narra como são os três degraus que antecedem a soleira da porta: o primeiro “era de um mármore branco tão polido/ que eu me espelhava nele tal como pareço” (/.../ e lo scaglion primaio/ bianco marmo era sì pulito e terso,/ ch’io mi specchiai in esso qual io paio- v. 94-96); o segundo “era mais escuro que escarlate/ duma pedra áspera e crestada, com fissuras” (Era il secondo tinto più che perso,/ d’una petrina ruvida e arsiccia/ crepata /.../- v. 97-99) e o terceiro, o mais alto, “me pareceu ser pórfiro, tão flamejante/ como sangue que das veias esguicha” (porfido mi parea, sì fiammeggiante/ come sangue che fuor di vena spiccia- v. 101-102). Na interpretação usualmente aceita, esses degraus representam as três etapas do sacramento da penitência, vale dizer, respectivamente, 1) o exame de consciência ou confissão (por isso o degrau é branco e o espelha);  2) a contrição (por isso o degrau é escuro  e de pedra áspera) e 3) a satisfação em obras por parte do pecador, ou a penitência propriamente dita (por isso o degrau é associado ao seu sangue) (6). Sobre esse terceiro degrau, o anjo (a Igreja) pousava os pés, sentado que estava na soleira da porta, que pareceu a Dante pedra de diamante.

            Seguindo o conselho de Virgílio, Dante pede para o anjo lhe abrir a porta (pois é necessário que o pecador queira submeter-se a tal purificação)  depois de bater três vezes no peito, fazendo o seu “mea culpa”.  O anjo então escreve com a ponta de sua espada sete P (de peccatum) em sua testa, para significar os sete pecados capitais, os quais serão removidos à medida que Dante avançar na subida da montanha do Purgatório. A esses sete pecados -- que são orgulho, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria – corresponderão os diversos níveis da montanha a serem percorridos.  O pecador deve ser bem firme em sua decisão de aí entrar pois “retorna para fora quem olhar para trás” (che di fuor torna chi ‘n dietro si guata- v. 132), conforme afirmação do anjo. “Olhar para trás” é interpretado como incorrer nos pecados da vida pregressa.

            O anjo então retira as duas chaves de sua vestimenta (que é cor de cinza ou de terra seca, símbolo da humildade) e com elas abre para os dois poetas a porta do Purgatório. Ao girar seus pinos nos gonzos, ela produz um som estrondoso. Mas logo em seguida Dante ouve, vindo de dentro, o que lhe pareceu um “Te Deum laudamus” (“Louvamos a ti, ó Deus”) “em voz unida a doces sons” (/.../ in voce mista al dolce suono- v. 141). Esse é um hino religioso cantado para dar graças ao Senhor (7).

NOTAS


(1) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”. Bantam Books, 1984- p. 336-337; MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume II: Purgatory”. Translated with an Introduction, Notes, and Commentary by Mark Musa. Penguin Books, 1985, p. 100-101.

(2) MANDELBAUM, Allen- op cit, p. 337

(3) LONGNON, Henri— “Dante- La Divine Comédie”. Traduction, préface, notes et commentaires par Henri Longnon. Paris: Garnier, 1951- p. 586.

(4) Id., ib..- p. 586

(5) Cf. Evangelho de Mateus (in “Bíblia Sagrada”- trad. João Ferreira de Almeida. Editora Vida, 1994. Mateus 16:18: “/.../ tu és Pedro, e sobre essa pedra edificarei a minha igreja”. Mateus 16:19:  “Eu te darei as chaves do reino dos céus; tudo o que ligares na terra, será ligado nos céus e tudo o que desligares na terra, será desligado nos céus”. Citado por MUSA, Mark-  “Dante- The Divine Comedy- Volume II: Purgatory”. Translated with an Introduction, Notes, and Commentary by Mark Musa. Penguin Books, 1985, p.106.

(6) MANDELBAUM, Allen- op cit, p. 338;  MUSA, Mark—op. cit, p. 105.

(7) MANDELBAUM, Allen- op cit, p.339


William Blake
Salvador Dalí

Amos Nattini


terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Canto VIII

PURGATÓRIO


Canto VIII


            O Canto abre com estes belos versos, em que Dante mobiliza seus recursos poéticos para assim caracterizar o final do dia:

Era già l’ora che volge il disio
ai navicanti e ‘ntenerisce il core
lo dì c’han detto ai dolci amici addio;

e che lo novo peregrin d’amore
punge, se ode squilla di lontano
che paia il giorno pianger che si more;  (VIII, 1-6)

Era já a hora em que a saudade se volta/ aos navegantes e enternece seu coração/ no dia em que deram adeus aos amigos queridos;
e em que o novato viajante punge/ de amor, se ouve sino ao longe,/ que parece prantear o dia agonizante;

            Note-se não só a melancolia das evocações líricas (pela separação dos amigos e da terra natal ou pela morte do dia) mas também a sonoridade dos versos, em especial a do v. 3, notável pela alternância de sons abertos e fechados e a frequente incidência das consoantes  d e t , que lhe dão um ritmo musical cativante.  

            Nesse início do Canto a atenção de Dante-personagem é atraída para um espírito que começa a cantar – logo seguido por outros, todos “com os olhos voltados para  as esferas celestiais” (avendo li occhi a le superne rote- v.18) -- um hino religioso apropriado àquela hora do dia  (que começa com os dizeres em latim “Te lucis ante terminum ”, ou “Antes do fim do dia”).  Como o “Salve, Regina” citado anteriormente, esse hino  é rezado  à noite, após as vésperas, nas horas canônicas da Igreja Católica (suas “completas”). No hino, os devotos pedem a Deus que os defenda das tentações especialmente sob a forma de maus sonhos (1). Em seguida, os espíritos se calam e, olhando para o alto, ficam na expectativa de algo que, eles sabem, vai acontecer. 

Amos Nattini

E então descem do céu dois anjos, de cabeças louras, com as vestes e asas verdes (a cor da esperança). Mas Dante não consegue ver-lhes os rostos. Seus olhos ficam ofuscados por essa visão. Eles portam espadas flamejantes, e colocam-se entre um lado e outro do bando de espíritos, visando defendê-los da serpente (ou de Satã) que em breve chegará, como informa Sordello. Dante fica atemorizado por isso e se aproxima mais de Virgílio:

Ond’io, che non sapeva per qual calle,
mi volsi intorno, e stretto m’accostai,
tutto gelato, a le fidate spalle.   (VIII, 40-42)

Ao que eu, sem saber qual seu caminho,/ olhei em torno, e me acheguei,/ todo gelado, aos ombros confiáveis.

            As espadas dos anjos são “truncadas e privadas de suas pontas” (tronche e private de le punte sue- v. 27), talvez porque não serão efetivamente usadas. Bastará a presença dos anjos ali para que a serpente seja expulsa. Esta  representaria uma ameaça aos espíritos do Antepurgatório apenas pela introdução do mal em seus sonhos, ou seja, pelo inconsciente, uma vez que sua consciência estava bem determinada a fazer a ascensão espiritual, não estando mais sujeita às tentações...(2)

            Andando alguns passos para baixo, no vale, os três poetas ficam mais próximos dos espíritos. Um deles fita Dante atentamente, como se quisesse reconhecê-lo.

Ver’ me si fece, e io ver’ lui mi fiei:
giudice Nin gentil, quanto mi piacque
quando ti vidi non esser tra’ rei!   (VIII, 52-54)

Ele avançou para mim, e eu, para ele:/ nobre juiz Nino, quanto me agradou/ quando vi que não estavas entre os réus!

            Trata-se do guelfo Nino Visconti, juiz de Gallura na Sardenha e neto do Conde Ugolino della Gherardesca, personagem do Canto XXXIII do Inferno (3).  Dante, que devia ter sido amigo de Nino, rejubila-se com o fato dele ter vindo para o Purgatório, diferentemente do avô.  

            Quando Dante diz a Nino que está ainda “na primeira vida” (prima vita- v.59) causa a maior admiração neste, que grita a alguém que estava ao seu lado: “Vem, Conrado!/ vem ver o que Deus, em sua graça, quis” (“Sù, Currado!/ vieni a veder che Dio per grazia volse”- v.65-66). Também Sordello, voltando-se para Virgílio, mostra-se admirado com esse fato.   

            Nino, depois, pede a Dante que, quando ele retornar ao nosso mundo, atravessando o oceano (“quando estiveres além das largas ondas”- quando sarai di là da le larghe onde- v.70) -- lembremo-nos que o Purgatório é uma montanha situada numa única ilha do hemisfério Sul -- solicite a sua filha Giovanna orações pela sua alma. Ele não pode contar com sua viúva:

Non credo che la sua madre più m’ami,
poscia che trasmutò le bianche bende,
le quai convien che, misera, ancor brami.   (VIII, 73-75)

Não creio que sua mãe ainda me ame/ depois que deixou os brancos véus/ que a pobre vai querer de volta.  

            Os comentaristas informam que os “brancos véus” eram então sinal de luto da viúva. E que ela se casaria novamente, mas seu novo marido passaria por muitos infortúnios, afetando assim a vida do casal, razão por que “a pobre vai querer de volta” os véus, i.e. retornar à situação anterior (4).  Nos versos seguintes Dante faz, pela boca de Nino, este lamento romântico:

Per lei assai di lieve si comprende
quanto in femmina foco d’amor dura,
se l’occhio o ‘l tatto spesso non l’accende.   (VIII, 76-78)

Por ela (a viúva) facilmente se compreende/ quanto dura, na mulher, o fogo do amor,/ se os olhos ou o tato não o reacendem com frequência.

            Depois, Virgílio, vendo Dante fitar o céu, lhe pergunta: “Filho, o que olhas lá em cima?” (Figliuol, che là sù guarde?”- v.88), ao que ele responde:  “Aquelas três tochas/ pelas quais o polo de cá todo ele arde” ( “A quelle tre facelle/ di che ‘l polo di qua tutto quanto arde”- v.89-90). Virgílio então lhe diz:

/.../ “Le quattro chiare stelle
che vedevi staman, son di là basse,
e queste son salite ov’ eran quelle”.   (VIII, 91-93)

/.../ As quatro estrelas brilhantes/ que viste esta manhã baixaram/ e estas três outras subiram para onde elas estavam.

            Em sua alegoria, Dante salienta aqui a importância, na subida da montanha do Purgatório, das três virtudes teologais (fé, esperança e caridade), que se impõem sobre as virtudes pagãs, as quatro virtudes cardeais (prudência, justiça, coragem e temperança).       

            Enquanto Virgílio falava, Sordello puxa-o para si e lhe aponta a serpente (chamada mais adiante “lista do mal”- la mala striscia- v. 100)  que avança pela grama e flores —“Vede lá o nosso adversário!” (“Vedi là ‘l nostro avversaro”- v. 95).  Rapidamente, movem-se em sua direção “os falcões celestiais” (li astor celestïali- v. 104), os dois anjos.  E a serpente foge, apenas “Sentindo fender o ar as verdes asas” (Sentendo fender l’aere a le verdi ali- v.106).

Doré- A serpente

            A partir daí, até o último verso, o Canto vai tratar de Conrado Malaspina (que se identifica no v. 118). Ele é aquele espírito a quem Nino se dirigiu antes, admirado, ao saber que Dante é vivo ainda. Conrado pede a Dante notícias de sua região, a de Val di Magra, pois, diz ele, “já fui poderoso lá” (già grande là era- v. 117). Dante então faz o elogio de sua família (gibelina). Embora nunca tenha estado naquela terra, conhece a fama de sua “gente honrada” (gente onrata- v. 128), que se orna “com o mérito da bolsa e da espada” (del pregio de la borsa e de la spada- v. 129), vale dizer, se honra pela liberalidade e valor militar. Conrado conclui o Canto fazendo uma “profecia” (estamos hipoteticamente em 1300). Diz, em outras palavras, que Dante, antes de sete anos, vai comprovar a verdade do que afirmou (com base na opinião alheia) por experiência própria. Na realidade, Dante nesses versos finais quer elogiar a generosidade da família de Franceschino Malaspina que o abrigou no exílio, no ano de 1306, em Lunigiana, no Val di Magra (5). Conrado se expressa da forma seguinte, na linguagem peculiar empregada pelo poeta (onde o “leito do Carneiro” corresponde à secção de Áries, no zodíaco): 

Ed elli:  “Or va; che ‘l sol non si ricorca
sette volte nel letto che ‘l Montone
con tutti e quattro i piè cuopre e inforca,

che cotesta cortese oppinïone
ti fia chiavata in mezzo de la testa
con maggior chiovi che d’altrui sermone,

se corso di giudicio non s’arresta”.   (VIII, 133-139)

E ele:  “Agora, vai, pois o sol não se deitará/ sete vezes no leito que o Carneiro/ cobre com todos os quatro pés/ antes que essa tua opinião cortês/ seja fixada na tua mente/ com pregos maiores do que os da fala dos outros--/ se Deus não parar o curso de seus decretos”.
     

NOTAS

(1) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume II: Purgatory”. Translated with an Introduction, Notes, and Commentary by Mark Musa. Penguin Books, 1985, p. 87;  cf. também AURÉLIO Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986- 2ª ed., rev. e ampl. (verbetes “completas” e “vésperas”)

(2) SINCLAIR, John D.-- “The Divine Comedy of Dante Alighieri” with translation and comment by John D. Sinclair- II. Purgatorio-  New York: Oxford University Press, 1961- p.115

(3) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”. Bantam Books, 1984- p. 335

(4) Id. ib, p. 335-336

(5) Id. ib, p. 336

  
Brasão dos Visconti


Brasão dos Malaspina


Salvador Dalí