terça-feira, 12 de abril de 2016

Canto XXX


PURGATÓRIO


Canto XXX


            O primeiro verso do Canto inclui mais uma referência astronômica, pois Dante chama, metaforicamente, os sete candelabros que vão na vanguarda do cortejo alegórico que observa à distância de “setentrião do primeiro céu (/.../ il settentrïon del primo cielo- v.1 ). Segundo os comentaristas, “setentrião” implica uma alusão às sete estrelas da Ursa Menor, vistas pelos antigos latinos como sete (septem) bois (triones) arando o céu...(1). Por outro lado, o “primeiro céu” é o Empíreo, a região celeste mais afastada, onde habitam os bem-aventurados junto de Deus (2).  Seu papel frente ao cortejo é comparado ao setentrião de baixo, a Ursa Maior, que orienta o timoneiro em busca do porto (v. 6).

            Quando os sete candelabros param,  os 24 anciãos que representam os livros do Velho Testamento (“a gente veraz”: la gente verace- v. 7) se detêm e voltam-se para o carro que os segue (símbolo da Igreja), e um deles diz, em latim, “Veni, sponsa, de Libano” (v.11), (“Vem, esposa, do Líbano”). Como essas palavras foram extraídas do “Cântico dos Cânticos” (IV, 8), supõe-se que o ancião que as profere, por três vezes, e é repetido pelos outros, representa tal livro bíblico. Ao dizê-las, ele está convocando Beatriz, símbolo da fé ou da revelação (3). Na sequência, cem “ministros e mensageiros da vida eterna” (ministri e messaggier di vita etterna- v.18), vale dizer, cem anjos, alçam voo sobre o “divino carro” (divina basterna- v.16) – comparados aos bem-aventurados erguendo-se de seus túmulos no dia do Juízo Final --  e bendizem a vinda dela, jogando flores para cima e em torno do carro. 

G.Doré-  Beatriz
            Dentre “uma nuvem de flores” (una nuvola di fiori- v.28), que subiam e caíam dentro e fora do carro, Dante então a vê:

sovra candido vel cinta d’uliva
donna m’apparve, sotto verde manto
vestita di color di fiamma viva    (XXX,  31-33)

acima de véu branco, coroada de oliva,/ uma dama me apareceu, em verde manto,/ vestida com a cor da chama viva

            A menção à coroa de oliva, ou oliveira, é uma referência indireta a Minerva, deusa da sabedoria, citada explicitamente mais adiante, no v. 68. Por outro lado, as cores envolvidas nas vestes de Beatriz são o branco, o verde e o vermelho. Como vimos, essas são as cores, respectivamente, da Fé, Esperança e Caridade, as  virtudes teologais, o que salienta o seu papel alegórico  (embora a figura de Beatriz, como se verá a seguir, seja mais do que uma mera ideia, despojada de sua vinculação terrena).

Amos Nattini
            Dante, que há muito não a via (ela falecera em 1290, dez anos antes daquele em que transcorre a ação do poema), diz que seu espírito,

per occulta virtù che da lei mosse,
d’antico amor sentì la gran potenza   (XXX,  38-39).

por oculta virtude que dela provinha/ de antigo amor sentiu o poderio.

            Essa “alta virtude” (alta virtù- v.41) já lhe tinha transpassado “antes que eu saísse da infância” (prima ch’io fuor di püerizia fosse- v.42), uma referência ao primeiro encontro do poeta com Beatriz, ocorrido quando tinha 9 anos, conforme relatou em “Vita Nuova” (4).  Quando ele se volta para a esquerda, para expressar sua emoção a Virgílio, comparando-se a uma criancinha (fantolin- v. 44) que corre para a mãe, citando inclusive um verso do autor da “Eneida” mas traduzido do latim original (conosco i segni de l’antica fiamma: reconheço os sinais da antiga chama”- v.48), o poeta já não está mais ali, o que ele informa assim, repetindo, cabalisticamente, seu nome três vezes (também são três as convocações do v. 11 e as ocorrências do verbo piangere, nos v.56-57):

Ma Virgilio n’avea lasciati scemi
di sé, Virgilio dolcissimo patre,
Virgílio a cui per mia salute die’mi;    (XXX,  49-51)

Mas Virgílio nos havia privado/ de si, Virgílio dulcíssimo pai,/ Virgílio a quem me confiei pela minha salvação

            Então, nem o encanto do Paraíso Terrestre, de que ele estava desfrutando, o impediu de chorar:

né quantunque perdeo l’antica matre,
valse a le guance nette di rugiada
che, lagrimando, non tornasser atre.    (XXX,  52-54)

nem tudo o que perdeu a antiga mãe/ impediu que as faces limpas pelo orvalho/ se tornassem escuras pelas lágrimas.

            Na sequência, Dante se surpreende ao ouvir a voz de Beatriz, chamando-o pelo nome no v. 55 (“que só por necessidade aqui se registra”- che di necessità qui si registra- v. 63, a única vez em que é mencionado na “Comédia”) (5) e dizendo-lhe para não chorar, “pois chorar te convém por outra espada” (ché pianger ti conven per altra spada- v.57). Ela, que estava sobre o lado esquerdo do carro, no outro lado do rio, o censura implicitamente pelos seus pecados, que não o tornavam digno de estar ali:    

“Guardaci ben! Ben son, ben son Beatrice.
Come degnasti d’accedere al monte?
non sapei tu che qui è l’uom felice?”     (XXX, 73-75)

Olha-me bem! Sou eu, sou a própria Beatriz./ Como te dignaste subir o monte?/ Não sabias que aqui o homem é feliz?      

            Dante então é tomado de vergonha, e não suporta nem mesmo ver sua imagem refletida no rio, uma metáfora implícita da imagem de sua vida  pregressa pecaminosa:

Li occhi miei cadder giù nel chiaro fonte;
ma veggendomi in esso, i trassi a l’erba,
tanta vergogna mi gravò la fronte.     (XXX, 76-78)

Meus olhos se abaixaram à clara fonte;/ mas vendo-me nela, desviei-os para a relva,/ tanta era a vergonha que me pesou na fronte.  

            Depois disso, os anjos passaram a cantar os primeiros versos de um salmo, que inicia por “In te, Domine, speravi” (v. 83) e afirma a esperança do pecador na misericórdia de Deus (trata-se do Salmo 31, 1-8, segundo o comentarista) (6).

            Segue-se uma longa comparação de seu estado emocional com a neve dos cumes das montanhas do “dorso da Itália” (lo dosso d’Italia- v.86), a cadeia dos Apeninos (7). Essa neve, primeiro “se congela,/ atingida e adensada pelos ventos eslavos” (/.../ si congela,/ soffiata e stretta da li venti schiavi- v.86-87) e depois é “derretida, escorrendo por si mesma” (poi,liquefatta, in sé stessa trapela- v.88) pelo vento (quente) da “terra sem sombra” (/.../ la terra che perde ombra /.../- v.89), i.e da África, “que parece fogo a derreter uma vela” (sì che par foco fonder la candela- v.90). Assim estava Dante na primeira situação, “sem lágrimas e suspiros(/.../ sanza lagrime e sospiri- v. 91), mas ao ouvir o canto dos anjos e entender que se compadeciam dele, derreteu-se o seu gelo interior e ele não pode conter as lágrimas e suspiros:

ma poi che ‘ntesi ne le dolci tempre
lor compartire a me, par che se detto
avesser: “Donna, perché sì lo stempre?”

lo gel che m’era intorno al cor ristretto,
spirito e acqua fessi, e con angoscia
de la bocca e de li occhi uscì del petto.    (XXX,  94- 99)

mas quando entendi nos doces acordes/ sua compaixão por mim, como se tivessem dito/ “Senhora, por que assim  o deprimes?”,
o gelo que me envolvia o coração/ se fez água e suspiro, e em angústia/ saiu do peito pela boca e pelos olhos.

            Beatriz então dirige-se às “substâncias pias” (sustanze pie- v.101), i.e. os anjos, e sua manifestação estende-se até o último verso do Canto. Mas como os anjos velam “nos eternos dias” (ne l’etterno die- v.103), e não há noite nem sono para eles, vale dizer acompanham tudo o que ocorre “no século” (il secol- v.105), ela dirige-se, na realidade, para Dante, deseja  que “seja compreendida por aquele que do lado de lá chora” (che m’intenda colui che di là piagne- v.107) pelos seus pecados, ele que está lá quitando, com o sofrimento, sua culpa, a fim de que a dor seja proporcional à culpa (v. 108). Ele só poderá avançar em sua jornada se remover toda mácula do pecado em si, o que é alcançado pelo arrependimento...

            Beatriz afirma que “Não só por obra das esferas magnas” (Non pur per ovra de le rote magne- v. 109), mas também pela graça divina, qualquer “pendor correto” (abito destro- v. 116) no jovem Dante (“na sua idade nova”:  ne la sua vita nova- v. 115) poderia ter produzido efeitos maravilhosos (Dante admite aqui, conforme as  crenças medievais, que os astros influenciavam as pessoas). Mas  depois que ela “mudou de vida” (quer dizer, faleceu), “este se afastou de mim, e se entregou a outrem” (questi si tolse a me, e diessi altrui- v. 126), diz Beatriz.   

Quando di carne a spirto era salita,
e bellezza e virtù cresciuta m’era,
fu’io a lui men cara e men gradita;

e volse i passi suoi per via non vera   (XXX,  127-130)

Quando me elevei de carne a espírito,/ e minha beleza e virtude cresceram,/ fui-lhe menos cara e bem-vinda;
ele voltou seus passos para via não verdadeira

            Para Beatriz, todos os recursos para fazer Dante voltar para o caminho da salvação foram insuficientes, “exceto mostrar-lhe a gente condenada” (fuor che mostrarli le perdute genti- v. 138). Foi por isso que ela desceu ao reino dos mortos para pedir a ajuda de Virgílio. 

            O Canto é concluído salientando a importância do arrependimento:

Alto fato di Dio sarebbe rotto,
se Letè si passasse e tal vivanda
fosse gustata sanza alcuno scotto

di pentimento che lagrime spanda.   (v.142-145)

Alto desígnio de Deus seria rompido/ se o Letes se passasse e tal refeição/ fosse provada sem algum pagamento
de arrependimento que faça verter lágrimas.  



NOTAS


(1) ZOLI, M e ZANOBINI, F- Dante Alighieri- “La Divina Commedia”- a cura di M. ZOLI e F. ZANOBINI. Firenze: Bulgarini,  2013- p. 677. Cf também o verbete “setentrião” no “Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa”, 2ª ed., revista e ampliada. Ed. Nova Fronteira, p. 1579.

(2) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”. Bantam Books, 1984- p.395.

(3) CIARDI, John- “Dante- The Purgatorio”. Signet Classics, 2009- p. 310  

(4) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”, op cit, p.397.

(5) SAYERS, Dorothy L.—“Dante: The Divine Comedy-  II. Purgatory”. Translated by Dorothy L. Sayers.  Penguin Classics, 1963, p.313

(6) CIARDI, John- “Dante- The Purgatorio”, op cit, p. 311.

(7) MARTINS, Cristiano-  “A Divina Comédia- Dante Alighieri”. Tradução, introdução e notas de Cristiano Martins-  5ª edição. Belo Horizonte: Itatiaia, 1989- v. 2, p.269.  

S.Dalí-  Arrependimento de Dante 

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Canto XXIX


PURGATÓRIO


Canto XXIX


            Após as palavras que dirigiu a Dante, conforme o Canto anterior, Matilda volta a cantar, afirmando, em latim (v.3), serem bem-aventurados aqueles cujos pecados foram perdoados. Esse verso consiste no início do Salmo 32 (1). Dante a compara a uma ninfa andando no bosque, ela que anda rio acima, pela sua margem. O rio, como vimos, é o Letes, rio do esquecimento (no caso, da memória do pecado). O poeta, na outra margem, acompanha seus passos pequenos. Não haviam, os dois, avançado muito “quando as margens paralelas deram a volta/ de modo que fiquei frente ao levante” de novo (quando le ripe igualmente dier volta,/ per modo ch’a levante mi rendei- v. 11-12), vale dizer, Dante ficou do lado em que nasce o Sol (cujo simbolismo relaciona-se a Deus). Isso certamente é mais apropriado para o que o Canto descreverá na sequência...    

            A dama o alerta para o que virá: “Irmão meu, olha e escuta” (/.../ “Frate mio, guarda e ascolta”- v.15). Segue-se então: “E eis que uma luz súbita atravessou/ a grande floresta, em todas as partes” (Ed ecco un lustro sùbito trascorse/ da tutte parti per la gran foresta- v. 16-17). Dante pensa que é um relâmpago. Mas a luz persiste, aumentando de intensidade, pois “mais e mais brilhava” (più e più splendeva- v.20). Ao mesmo tempo, “uma melodia doce corria/ pelo ar luminoso” (E una melodia dolce correva/ per l’aere luminoso; /.../- v.22-23).

            Dante, maravilhado com aquilo, censura Eva pela sua ousadia, ela  que não suportou ficar sob véu algum” (non sofferse di star sotto alcun velo- v.27) -- i.e. o véu da ignorância -- e desobedeceu ao Senhor, privando-o -- ou seja, o ser humano -- das “delícias inefáveis” (v. 29) do Paraíso Terrestre:

sotto ‘l qual se divota fosse stata,
avrei quelle ineffabili delizie
sentite prima e più lunga fïata   (XXIX,  28-30)

debaixo dele, se devota fosse,/ eu teria experimentado essas delícias inefáveis/ antes e por mais longo tempo”   

            Enquanto Dante se move “entre tantas primícias/ do prazer eterno” (/.../ tra tante primizie/ de l’etterno piacer /.../ - v.31-32) o ar se inflama debaixo das árvores e ele constata que o “doce som” (dolce suon- v. 36) ouvido antes era um canto. O poeta então, antes de prosseguir o relato do cortejo fantástico que viu – na verdade, uma extensa alegoria -- invoca as Musas (chamadas de “Virgens sacrossantas”: sacrosante Vergini- v. 37), em especial Urânia (a da Astronomia ou das coisas celestes), para que o auxiliem “a pôr em verso coisas difíceis de conceber” (forti cose a pensar mettere in versi- v. 42). 

            De início, ele pensa ver “sete árvores douradas” (sette alberi d’oro-  v. 43) mas ao se aproximar delas percebe que, na realidade, eram candelabros, interpretados pelos comentadores como os sete dons do Espírito Santo (sabedoria, discernimento, prudência, força, conhecimento, piedade e temor de Deus). Além disso, distingue “Hosana” nas vozes do canto que ali se ouvia. Essa é palavra hebraica que expressa uma saudação. Foi usada pelo povo quando Cristo estava prestes a entrar em Jerusalém (“Hosana ao filho de Davi”, conforme o evangelho de S. Mateus) (2).

            Dante fica tão admirado com o que vê que se volta para Virgílio em busca de explicação mas este lhe responde “com olhos não menos carregados de espanto” (con vista carca di stupor non meno-  v.57). Virgílio, ou a Razão -- neste domínio exclusivo da Fé -- já não pode mais lhe ser útil...  As luzes dos candelabros, que avançam muito lentamente, atraem tanto a atenção de Dante que Matilda lhe adverte para observar o que vem atrás delas. E o que vê é gente “vestida de branco” (vestite di bianco- v.65), de uma alvura jamais vista entre nós.  Quando essa gente está defronte dele, na outra margem, Dante detém o passo e vê as chamas das velas deixarem atrás de si um rastro,

lasciando dietro a sé l’aere dipinto,
e di tratti pennelli avean sembiante;

sì che lì sopra rimanea distinto
di sette liste, tutte in quei colori
onde fa l’arco il Sole e Delia il cinto    (XXIX, 74-78)

deixando atrás de si o ar pintado/ com a aparência de traços de pincel;
de modo que o ar superior ficava dividido/em sete listras, todas naquelas cores/ com que o Sol faz o arco e Délia o cinto “  

            Isso significa que as cores eram as do arco-íris e as do halo da Lua (a deusa desta, Diana, é chamada de Délia por ter nascido na ilha de Delos) (3).    

G.Doré-  O cortejo
    
            Debaixo desse “tão belo céu” (così bel ciel- v. 82) vem aquela gente de branco,  identificada no v. 83 como “vinte e quatro anciãos”, “coroados de lírio” (coronati venien di fiordaliso- v. 84), símbolo da pureza de sua fé, que   representam, segundo os comentadores (4), os vinte e quatro livros do Velho Testamento, na contagem de S.Jerônimo. Eles vêm cantando, e nesse canto bendizem uma “dentre as filhas de Adão” (ne le figlie d’Adamo /.../- v.86) e as suas belezas, com palavras que lembram a saudação do anjo da Anunciação a Maria, estabelecendo assim a ponte entre o Velho e o Novo Testamento.  

            Depois de sua passagem vieram animais que simbolizam os quatro Evangelhos, conforme uma representação tradicional da Bíblia. Dante assim se expressa, usando a sua linguagem peculiar:

Poscia che i fiori e l’altre fresche erbette
a rimpetto di me da l’altra sponda
libere fuor da quelle genti elette,

sì come luce luce in ciel seconda,
vennero appresso lor quattro animali,
coronati ciascun di verde fronda.     (XXIX, 88-93)

Depois que as flores e as frescas plantas/ defronte a mim na outra margem/ ficaram livres daquela gente eleita,
assim como no céu uma luz segue outra,/ vieram em seguida quatro animais,/ coroados cada um de verdes folhas.     

            Esses quatro animais, coroados com o verde da esperança, eram, como diz a seguir, providos de seis asas, e as plumas destas, de olhos, como os de Argus, “se vivos fossem” (se fosser vivi- v. 96), mais uma referência mitológica (Argus, de cem olhos, foi encarregado pela ciumenta Juno de vigiar  Io, amante de Jove, seu marido. Mercúrio matou Argus, mas Juno colocaria seus olhos na cauda de um pavão) (5). 

            Nesse ponto, em vez de prosseguir na descrição dos animais alados, Dante remete o leitor para o livro de Ezequiel, no Velho Testamento,  lembrando todavia que quanto ao número das asas ele não está de acordo com este, e sim com João (no Novo Testamento). As referências bíblicas precisas, onde ocorrem as descrições fantásticas envolvendo aqueles animais são:  Ezequiel 1:4-14 e Apocalipse 4:6-8, conforme Mandelbaum (6). 

            Dante prossegue descrevendo o cortejo:

Lo spazio dentro a lor quattro contenne
un carro, in su due rotte, trïnfale,
ch’al collo d’un grifon tirato venne.    (XXIX, 106-108)

O espaço entre os quatro contém/ um carro sobre duas rodas, triunfal,/ que vem puxado pelo colo de um grifo.  

            O carro entre os quatro animais alados, ou dos Evangelhos, representa a Igreja, segundo os comentadores. Ele é puxado por um grifo, a figura mitológica com cabeça e asas de águia e corpo de leão.  Tal figura representa Cristo, com sua natureza dual, divina e humana. Segundo os versos 113-114, a parte de ave era de ouro, enquanto o restante do corpo do grifo era branco, misturado com vermelho. A primeira se associa então à natureza divina e a segunda, à natureza humana de Cristo. As asas do grifo se erguiam a perder de vista e se encaixavam entre as mencionadas sete listras coloridas de luz produzidas pelas velas dos candelabros no céu, ladeando a do meio e deixando três para um lado e três para o outro. 

            Nos versos seguintes (v.115-120) Dante -- referindo-se agora não só a  personagens mitológicos mas também históricos -- afirma que tal carro triunfal era superior não só àquele que alegrou  (Cipião) Africano ou (Otávio) Augusto, após suas vitórias, mas até mesmo ao carro do Sol, “que, se extraviando, foi incendiado” (/.../ che, svïando, fu combusto- v. 118) por Jove, uma rápida alusão de Dante à mitologia, que as notas explicativas nos ajudam a entender: Faetonte certa vez tomou o carro de Apolo, seu pai, e o conduziu tão mal que colocou a Terra em risco. Jove, atendendo às preces dos que aqui viviam, o puniu, lançando um raio sobre ele (7).   

G.Doré- Caridade, Esperança e Fé 

            Junto à roda direita do carro, três damas avançavam, dançando. São interpretadas como as virtudes teologais. Dante as associa a diferentes cores, uma ao vermelho (a Caridade), outra à esmeralda (a Esperança) e a terceira ao branco, de “neve recém-caída” (/.../ neve testé mossa- v. 126) (a Fé). Mas o ritmo de dança das outras era determinado pelo canto da primeira (“/.../ uma tão vermelha/ que mal seria notada dentro do fogo”: /.../  l’una tanto rossa/ ch’a pena fora dentro al foco nota- v.122-123), demonstrando assim a primazia do amor frente às outras virtudes teologais (antes disso menciona-se a alternância entre o branco e o vermelho, entre a Fé e a Caridade, relacionando-se talvez à alternância na conduta do cristão entre a vida contemplativa e a vida ativa): 

e or parëan da la bianca tratte;
or da la rossa; e dal canto di questa
l’altre toglien l’andare e tarde e ratte     (XXIX, 127-129)

e ora a de branco parecia conduzi-las,/ ora a de vermelho; e do canto desta/ as outras tomavam o ritmo da dança, lento ou rápido

            Ao lado da roda esquerda, quatro outras damas dançavam. São as virtudes cardeais (Prudência, Justiça, Temperança, Fortaleza). Vestem a púrpura imperial porque representam as virtudes clássicas, segundo Ciardi    (8). Seguem a cadência “de uma delas que tinha três olhos” (d’una di lor ch’ avea tre occhi  in testa- v. 132), interpretada como a Prudência.  

Amos Nattini

            Na sequência, vêm sete velhos, que representam os livros restantes do Novo Testamento (além do Evangelhos já citados). Inicialmente, Dante vê dois deles, de porte “digno e grave” (onesto e sodo- v.135).  Um se mostrava seguidor/ do sumo Hipócrates” (v. 136-137), que se destacou na medicina da Antiguidade, e por isso é identificado como o livro dos “Atos”, cujo autor é o médico S.Lucas;  

mostrava l’altro la contraria cura
con una spada lucida e aguta,
tal che di qua dal rio mi fé paura     (XXIX, 139-141)

o outro mostrava preocupação contrária/ com uma espada reluzente e aguda/ de tal modo que senti medo, mesmo estando do lado de cá do rio.

            Este é identificado como as “Epístolas” de S.Paulo, o qual brandia a  espada do Espírito, i.e. da palavra de Deus. (9)  

            Depois, Dante vê quatro velhosde aparência humilde” (Poi vidi quattro in umile paruta- v. 142), porque representam as Epístolas menores de Tiago, Pedro, João e Judas, seguidos de um velho sozinho que avançava, “como que adormecido, com expressão arguta” (/.../ dormendo, con la faccia arguta- v. 144).  Trata-se do “Apocalipse” do visionário S.João (10).  

            Esses sete (anciãos) se vestiam como o primeiro grupo” (E questi sette col primaio stuolo/ erano abitüati, /.../-  v.145-146), quer dizer, de branco, como os vinte e quatro referidos inicialmente, representantes dos livros do Velho Testamento. Mas diferentemente deles, esses velhos não estavam coroados de lírios “e sim de rosas e doutras flores vermelhas” (anzi di rose e d’altri fior vermigli- v. 148). O vermelho é a cor associada à Caridade (11), como vimos acima. Assim, o que os versos nos dizem é que o Novo Testamento, embora conserve o branco da Fé associado ao Velho Testamento, difere dele por dar maior ênfase à Caridade. 

            Quando o carro estava em frente a Dante, na outra margem do rio,  ouviu-se um trovão e todo o cortejo de repente parou. “Pareceu ter recebido proibição de prosseguir” ( parvero aver l’andar più interdetto- v. 153).    



NOTAS


(1) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”. Bantam Books, 1984-p. 391.

(2) CIARDI, John- “Dante- The Purgatorio”. Signet Classics, 2009- p. 300 

(3) SAYERS, Dorothy L.—“Dante: The Divine Comedy-  II. Purgatory”. Translated by Dorothy L. Sayers.  Penguin Classics, 1963, p.304.

(4) CIARDI, John- “Dante- The Purgatorio”, op cit, p. 301.

(5) Id. ib., p. 302.

(6) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”, op cit, p.393.

(7) Id., ib., p. 394

(8) CIARDI, John- “Dante- The Purgatorio”, op cit, p. 303.

(9) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”, op cit, p.394.

(10) Id., ib., p. 394

(11) Id., ib., p. 395.  

W. Blake- O carro triunfal
Salvador Dalí 
O grifo. 

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Canto XXVIII


PURGATÓRIO


Canto XXVIII
           

            O Canto inicia pela descrição de uma bela região, logo identificada como a do Paraíso Terrestre, que se situa no topo da montanha do Purgatório. Dante toma a iniciativa (adiantando-se aos seus guias) de entrar nessa “divina floresta” (divina foresta- v.2) no amanhecer daquele dia, uma floresta “que o novo dia temperava aos olhos” (ch’a li occhi temperava il novo giorno- v.3) (ressalte-se a sinestesia desse verso). O poeta diz que pisa num solo perfumado em toda parte, forma indireta de se referir às flores presentes nessa região, onde sopra “Uma brisa doce, sempre igual/ a si mesma” (Un’aura dolce, sanza mutamento/ avere in sé, /.../- v.7-8) (mais adiante, entenderemos porque é assim) que fazia inclinar a copa das árvores para o ocidente, não porém tanto “que os passarinhos, pelos cimos,/ deixassem todos de exercer a sua arte(/.../ che li augelletti per le cime/ lasciasser d’operare ogne lor arte- v.14-15), enquanto as folhas (ou o rumor delas)  faziam bordão às suas rimas” (che tenevan bordone a le sue rime- v.18) (i.e. às rimas do canto dos pássaros). Essa situação no Paraíso é objeto de uma comparação (v. 19-21) a uma bela região familiar ao poeta, em que é lembrada uma praia do Adriático, perto de Ravenna (onde Dante residiu), e são referidos o deus mitológico dos ventos Eolo (que os mantinha presos em uma caverna) e Siroco, o vento quente e seco vindo da África... (1)   

G. Doré- O Paraíso Terrestre
            Avançando para dentro da “selva antiga” (v. 24), eis que Dante se depara com

/.../ un rio,
che ‘nver’ sinistra con sue picciole onde
piegava l’erba che ‘n sua ripa uscìo.     (XXVIII,  25-27)

/.../ um rio,/ que para a esquerda, com suas pequenas ondas,/ inclinava a erva crescida em sua margem.

            Reitera-se aqui o sentido do “suave vento” (soave vento- v.9) pois a erva se inclinava para a esquerda, no sentido leste-oeste...

            Na sequência, os versos mencionam a água desse rio, que mais adiante, no v.130, será identificado como o rio Letes (do esquecimento, na mitologia clássica). A essa, a nossa mais límpida água não se iguala. Todavia, quando ele corre subterraneamente suas águas são escuras:

avvegna che si mova bruna bruna
sotto l’ombra perpetüa, che mai
raggiar non lascia sole ivi né luna   (XXVIII,  31-33)

embora corra escura, escura/ sob a sombra perpétua, que jamais/ recebe raio de sol ou lua 


Amos Nattini

            Dante contempla a outra margem do riacho, variadamente florida -- com “a grande variação de fresco maio” (la gran varïazion d’i freschi mai- v. 36) (pois o Paraíso Terrestre é uma primavera permanente, conforme o v. 143) – e, de repente, sua atenção é atraída por

una donna soletta che si gia
e cantando e scegliendo fior da fiore
ond’era pinta tutta la sua via       (XXVIII,  40-42)

uma dama sozinha que caminhava/ cantando e escolhendo flor dentre as flores/ que coloriam toda a sua via

            Ele então pede para ela se aproximar pois deseja entender o que diz em seu canto. E afirma que ela o faz recordar de Proserpina

Tu mi fai rimembrar dove e qual era
Proserpina nel tempo che perdette
la madre lei, ed ella primavera.     (XXVIII,  49-51)

Tu me fazes recordar onde estava e como era/ Proserpina no tempo em que a mãe/ a perdera, e ela, a primavera”.

            Segundo a mitologia, Proserpina, filha da deusa da Terra, Ceres, foi levada à força ao Hades pelo seu rei enquanto colhia flores (i.e. na primavera). Depois de libertada, foi obrigada a descer ao mundo subterrâneo e lá passar um terço de todo ano, por ter comido parte de uma romã. Para Sayers, “esse mito é usado por Dante como uma imagem da Queda do Homem e da perda do Eden” (2)

            A dama atende ao seu pedido, e aproxima-se. Quando ela levanta seus olhos, Dante compara seu olhar amoroso ao de Vênus, afirmando que ele não crê “que brilhasse tanta luz” (Non credo che splendesse tanto lume-  v.64) sob os cílios desta, após ser transpassada por uma seta (Vênus, após ser flechada, acidentalmente, por seu filho Cupido, apaixonou-se por Adonis) (3).  

Ella ridea da l’altra riva dritta,
trattando più color con le sue mani,
che l’alta terra sanza seme gitta.      (XXVIII, 67-69)

Ela sorria, em pé, da outra margem,/ entretecendo com suas mãos diversas cores/ que esta alta terra, sem semente, produz.

            Note-se o uso metonímico da palavra “cores” em vez de “flores” no v. 68 e a produção “sem semente” delas, que são mera decorrência da vontade divina.

            A seguir Dante manifesta seu ódio por aquele rio que o separa da dama sorridente, comparando-o ao ódio que sentiu Leandro (um jovem de Abidos, na Ásia Menor, apaixonado por Hero, sacerdotisa de Afrodite, em Sestos, na Grécia) certamente no dia em que pereceu no Helesponto, que ele cruzava habitualmente a nado para ver sua amada. O Helesponto é o atual estreito de Dardanelos, que separa a Europa da Ásia. O poeta também faz aí rápida menção a Xerxes. Esse rei persa, em guerra com os gregos em 485 a.C., cruzou o estreito na ponte formada pelos seus barcos unidos e voltou por ali humilhado, após sua derrota.  Por isso Dante diz que o Helesponto é “ainda freio a todo orgulho humano” (ancora freno a tutti orgogli umani-  v.72). (4)

            Então a dama -- que só saberemos chamar-se Matilda pela única menção  ao seu nome no v. 119 do último canto do Purgatório e sobre quem não há consenso, entre os comentadores, sobre a figura histórica a que se refere – então essa dama, repito, explica a Dante a razão de seu sorriso, indicando-lhe o salmo “Delectasti”, ou seja, o salmo 92, de onde se infere que ela se rejubila pelas obras divinas (5).  Antes ela define o lugar em que está, o Paraíso Terrestre, assim: “neste lugar escolhido/ para ser o ninho da natureza humana” (/.../ in questo luogo eletto/ a l’umana natura per suo nido- v. 77-78). E se dispõe a responder às questões que Dante quiser lhe formular.

            O vate florentino está intrigado com o que vê ali, a água e o rumor das copas das árvores resultante do vento que sopra, pois isso está em desacordo com o que Estácio lhe havia dito antes (cf canto XXI, 43-54), de que no Purgatório não há alterações atmosféricas (6).

            A partir do v. 88, até o v. 144 (o Canto tem 148 versos), é Matilda quem fala. Ela explica a Dante que de fato ali não há tais fenômenos como em nosso mundo. O sumo Bem  colocou o Éden no topo da montanha do Purgatório para que o ser humano ali vivesse livre de todas as perturbações, inclusive dessas, atmosféricas. Esse terraço está mais próximo das esferas celestes, a primeira das quais, a do Primo Mobile (7), é responsável pelo movimento cósmico e assim pelo vento suave e constante que ali sopra, sempre no sentido leste-oeste. 

            Quanto à agua que Dante vê, ela não resulta dos vapores terrestres, que causam a chuva, como se verá adiante.

            Antes Matilda assim se refere ao Paraíso Terrestre (é Dante que fala por sua boca, refletindo a doutrina católica do pecado original):

Lo sommo Ben, che solo esso a sé piace,
fé l’uom buono e a bene, e questo loco
diede per arr’ a lui d’etterna pace.

Per sua difalta qui dimorò poco;
per sua difalta in pianto e in affanno
cambiò onesto riso e dolce gioco.       (XXVIII,  91-96)

O sumo Bem, que só em si mesmo se compraz,/ fez o homem bom e para o bem, e este lugar/ lhe deu como garantia de eterna paz.
Por sua falta, aqui demorou pouco;/ por sua falta, mudou em pranto e em canseira/ o riso honesto e o doce jogo.   

            O sumo Bem (Deus), sendo perfeito, só se satisfaz com a perfeição (v. 91). Ele fez o homem à sua imagem e semelhança, dotando-o de livre-arbítrio. Mas este escolheu desobedecê-lo... Por isso, foi expulso do Paraíso.      

            O ar movido pela “primeira esfera” (la prima volta- v.104) possui uma virtude generativa de modo que as plantas, atingidas pelo vento, dissemina-as aí, e também na “outra terra” (l’altra terra- v.112), quer dizer, na nossa (ou no hemisfério Norte, oposto ao Sul, desabitado, em que se situa o monte do Purgatório):

Non parrebbe di là poi maraviglia,
udito questo, quando alcuna pianta
sanza seme palese vi s’appiglia.

E saper dei che la campagna santa
dove tu se’, d’ogne semenza è piena,
e frutto ha in sé che di là non si schianta.     (XXVIII, 115-120)

Não deveria pois lá causar admiração,/ ouvido isto, quando alguma planta / ali cresça sem semente manifesta.
E deves saber que o santo campo/ em que estás tem todas as sementes,/ e há aqui frutos que lá não se colhem  

            Matilda prossegue nessa caracterização do Paraíso Terrestre referindo-se em seguida à água desse lugar que, diferentemente do que ocorre em nosso mundo, não se origina da evaporação e depois da sua condensação, 

ma esce di fontana salda e certa,
che tanto dal voler di Dio riprende,
quant’ ella versa da due parti aperta.   (XXVIII, 124-126)

mas brota de uma fonte firme e certa/ que tanto recupera pela vontade de Deus/ quanto verte em duas direções.

            Dessa fonte originam-se os dois rios que banham o terraço. O Letes, presente nesta parte em que os três poetas estão, que apaga a memória do pecado, e o Eunoe, “do outro lado” (da l’altro lato- v.130), que restaura a memória de todo o bem feito:

Da questa parte con virtù discende
che toglie altrui memoria del peccato;
da l’altra d’ogne ben fatto la rende.       (XXVIII, 127-129)

Desta parte, desce com a virtude/ de apagar a memória do pecado;/ da outra, restaura a de todo o bem feito

            Enquanto o Letes pertence à tradição mitológica, o Eunoe é invenção de Dante. Nada impuro entra no Paraíso, nem mesmo a memória do pecado. Por isso, os versos 131-132 dizem que as duas águas devem ser provadas, não só a do Eunoe mas também a do Letes.

            Na conclusão do Canto, Matilda acrescenta um “corolário” (v.136) ao que acabou de expor.  Ela diz que os poetas antigos -- que cantaram  a idade de ouro e seu estado feliz” (l’età de l’oro e suo stato felice- v. 140) -- talvez tenham colocado este lugar no Parnaso. Então, Dante se volta para os “seus” poetas, Virgílio e Estácio, e os vê, sorridentes, pois haviam ouvido o que dissera essa “bela dama” (bella donna- vv. 43 e 148). Nessa ocasião, ela adiciona mais esta observação sobre o Paraíso Terrestre, onde é “sempre primavera”:

Qui fu innocente l’umana radice;
qui primavera sempre e ogne frutto;
nettare è questo di che ciascun dice.   (XXVIII, 142-144)

Aqui foi inocente a humana raiz;/ aqui é sempre primavera e há todo fruto;/ este é o néctar de que todos falam.

            Uma observação final: o livro “Dante’s Divine Comedy- Purgatorio”, de Kathryn Lindskoog (Mercer University Press, 1997), é antecedido por um interessante ensaio a respeito do quadro “Primavera” de Botticelli, de caráter alegórico. Para além da interpretação usual desse quadro, que o relaciona à mitologia clássica pagã, a autora o interpreta também de acordo com o mito judaico-cristão do Jardim do Éden, considerando-o como uma ilustração dos  cantos 28 a 31 do “Purgatório”.      



NOTAS


(1) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”. Bantam Books, 1984-p. 388

(2) SAYERS, Dorothy L.—“Dante: The Divine Comedy-  II. Purgatory”. Translated by Dorothy L. Sayers.  Penguin Classics, 1963, p. 294-295.

(3) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”, op cit, p.389. 

(4) CIARDI, John- “Dante- The Purgatorio”. Signet Classics, 2009- p. 290.   

(5) Id., ib., p. 290.  

(6) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”, op cit, p.390. 

(7) ZOLI, M e ZANOBINI, F- Dante Alighieri- “La Divina Commedia”- a cura di M. ZOLI e F. ZANOBINI. Firenze: Bulgarini,  2013-  p. 659.

Salvador Dalí