PURGATÓRIO
Canto VI
Este Canto abre com uma imagem curiosa, a dos jogadores de zara, um jogo medieval apoiado no
lançamento de dados. Quando acaba, todos se reúnem em torno do vitorioso,
pressionando-o para obter dele algum dinheiro, enquanto o perdedor fica sozinho
num canto, refazendo todos os lances e aprendendo a lição. O poeta se compara ao
vitorioso, que só se livra da pressão dos que o rodeiam atendendo à sua
expectativa. Também ele só se livrará dos espíritos que o pressionam
fazendo-lhes promessas, as de recomendá-los aos vivos, em nosso mundo, para que
façam preces em sua intenção. Como ele diz mais adiante, explicitamente.
Come libero fue da tutte quante
quell’ ombre che pregar pur ch’altri
prieghi,
sì che s’avacci lor divenir sante,
io cominciai: /.../ (VI, 25-28)
Logo
que fiquei livre daquelas sombras/ que pediam as preces alheias/ para apressar
a sua santificação,/
comecei:
/.../
Amos Nattini |
O
poeta pergunta a Virgílio sobre uma passagem da “Eneida” em que os deuses parecem
inflexíveis, sem se dobrar às súplicas dos homens, negando assim que “a oração dobre decreto do céu” (che
decreto del ciel orazion pieghi- v. 30), como acreditam todos os que estão ali, purgando as suas
faltas. Mas Virgílio lhe diz que “a
esperança deles não é ilusória” (e la speranza di costor non
falla- v. 35),
deixando implícito que isso só valia para o paganismo, a época anterior à vinda
de Cristo. Mas Beatriz lhe esclarecerá melhor essa questão, diz ele, ela “que será lume entre a verdade e o teu
intelecto” (che lume fia tra ‘l vero e lo ’ntelletto- v. 45).
Antes disso,
porém, Dante cita meia dúzia daqueles espíritos que o pressionavam, os quais
são referidos rapidamente, em poucas palavras. Na época, deviam ser facilmente
identificados pelos leitores/ouvintes do poema. Hoje precisamos das notas dos
comentadores para saber quem eram eles. Todos tiveram morte violenta: 1) um juiz
aretino assassinado pelo bandido Ghino di Tacco porque condenou um parente deste;
2) um outro aretino que se afogou no
Arno, perseguindo os inimigos, ou sendo perseguido por eles (o verso é ambíguo);
3) Federigo Novello, citado nominalmente, morto pelos guelfos de Arezzo; 4) um
nativo de Pisa, assassinado pelo Conde Ugolino (personagem do Canto XXIII do “Inferno”),
perdoado pelo pai de Federigo, Marzucco, que havia se tornado franciscano; 5) o Conde Orso, morto pelo primo, em
decorrência da luta que travavam os pais de ambos; e finalmente 6) Pier de la
Broccia, também citado nominalmente,
médico e ecônomo de Frederico III de França, com quem caiu em desgraça, e
acabou sendo enforcado, por causa das intrigas da segunda esposa do rei, a “dama de Brabante” (1). Aliás, quanto a esta, que ainda estava viva em
1300 (ano em que se passa a ação da “Comédia”), Dante a adverte nestes termos,
pois ela corre o risco de ir para o Inferno:
Pier da la Broccia dico; e qui proveggia,
mentr’ è di qua, la donna di Brabante,
sì che
però non sia di peggior greggia. (VI, 22-24)
Era
Pier de la Broccia; e que/ a dama de Brabante, enquanto estiver aqui (no
mundo dos vivos), providencie/ para que não acabe em pior grei!
Prosseguindo em sua jornada, quando o
movimento do Sol indica que a tarde avança, os dois poetas avistam uma alma
sozinha, que olha para eles. Diz Virgílio: “ela
nos indicará a via mais curta” (quella ne ‘nsegnerà la via più
tosta- v.60).
Dante compara essa alma -- que vai se identificar como Sordello no v. 74 (um famoso trovador do século XIII, que escreveu
em provençal) (2) -- a um leão em repouso:
Venimmo a lei: o anima lombarda,
come ti stavi altera e disdegnosa
e nel mover de li occhi onesta e tarda!
Ella non ci dicëa alcuna cosa,
ma lasciavane gir, solo sguardando
a guisa di leon quando si posa. (VI, 61-66)
Fomos
até ela: ó alma lombarda,/ como tu estavas altiva e desdenhosa/ e no mover dos
olhos digna e lenta!/
Ela não
nos disse nada./ Deixou-nos passar, só nos olhando/ à guisa de leão quando
repousa.
Quando Sordello fica
sabendo que Virgílio é de Mântua, ele se ergue no mesmo instante para se
confraternizar com o conterrâneo: “O
mantuano, eu sou Sordello, da tua terra!” (O Mantoano, io son
Sordello/ de la tua terra!”- v.74-75).
Logo na sequência, em
contraste a essa manifestação de entusiasmo entre os dois pelo simples fato de
serem da mesma terra, Dante-autor inicia seu longo discurso crítico à Itália de
seu tempo, cujos cidadãos viviam em conflito permanente, como seres irracionais,
pois “um ao outro rói” (/../.e
l’un l’altro si rode- v.83). Sua crítica à Itália e depois a Florença estende-se até o
final do Canto. A partir do v. 76 ele passa a dirigir-se diretamente à Itália,
chamada sucessivamente de “albergue da
dor” (di dolore ostello- v.76), “navio sem piloto em
grande tempestade” (nave sanza nocchiere in gran tempesta- v.77), “senhora não de províncias mas de bordel” (non
donna di provincie, ma bordello!- v.78), animal rebelde “por não ser corrigido pelas esporas” (per non
esser corretta da li sproni- v.95) de um César que deveria
sentar na sela vazia, carente de um imperador. Dante lembra aqui Justiniano, o
imperador romano do Oriente, do séc. VI e
cristão, que codificou as leis do Império:
Che val perché ti racconciasse il freno
Iustinïano , se la sella è vòta?
Sanz’esso fora la vergogna meno. (VI, 88-90)
De que
valeu Justiniano consertar teu freio/ se a sela está vazia?/ Sem ele a vergonha
seria menor.
Mas a Itália
estava agora subordinada ao Sacro Império Germânico-Romano, cujo imperador, negligente,
não se interessava por ela. Essa é a essência da crítica do poeta a “Alberto tedesco” (v.97), que também se
aplicava ao pai deste (Rodolfo). Ambos (pertencentes à dinastia Habsburgo) abandonaram o “jardim do Império” (giardin de lo ‘mperio- v. 105) à sua própria sorte,
mais preocupados com outros territórios sob seu domínio. Temos aqui mais uma das
diversas imagens (metáforas) que Dante evoca para caracterizar a Itália “serva” e “mísera” (v. 76 e 85) de seu tempo, cuja situação anárquica ele quer
ver mudada pela ação efetiva de um imperador. Dante crítica também a gente que
devia “ser devota”, i.e. a Igreja, por imiscuir-se em assuntos temporais, sem
atender ao que “Deus ordena” (v.93),
vale dizer, sem observar o princípio evangélico (Marcos, 12: 16-17) da
separação entre os poderes temporais e espirituais (“Dai a César o que é de
César, e a Deus o que é de Deus”).
Nos versos
seguintes (a partir do v. 106), iniciados por anáforas (repetição de “vem ver” – viene a
veder --
três vezes) o poeta dirige-se ao imperador Alberto (“ó homem negligente”- v.107; “ó cruel”-v.109).
Convida-o a vir para ver representantes de diversas famílias aí citadas em luta
permanente, pois são guelfas e gibelinas segundo os comentadores; convida-o ainda
a vir curar os males de seus nobres, a ver como está sua Roma, a ver como o
povo se ama (cf. a ironia, que será explorada mais adiante), convida-o a vir
para se envergonhar da situação que encontrará.
Na referência a Roma, ela é assim personalizada:
Vieni a veder la tua Roma che piagne
vedova e sola, e dì e notte chiama:
“Cesare
mio, perché non m’accompagne?” (VI,
112-114)
Vem ver
a tua Roma que chora,/ viúva e só, que dia e noite chama:/ “Ó César meu, por
que não estás aqui comigo?”
Dada a situação
crítica que mostrou, o poeta pergunta a Deus/ Cristo (invocado pela expressão “ó sumo Jove”- o sommo
Giove- v. 118)
se ele desviou “os justos olhos” (li giusti occhi- v. 120) de sua terra. Ou então
esse é mais um dos mistérios que mostram os limites da razão humana, cuja
insuficiência é reconhecida pelo poeta florentino:
O è preparazion che ne l’abisso
del tuo consiglio fai per alcun bene
in tutto de l’accorger nostro scisso? (VI, 121-123)
Ou
preparas, no abismo/ de tua mente, algum bem,/ em tudo distante da nossa
compreensão?
A partir do v.
127, até o fim do Canto, Dante volta-se para a sua Florença natal, usando intensamente a ironia,
bem evidente nas observações abaixo, contidas nos versos citados:
-- a crítica antes feita à Itália não diz respeito a ela:
Fiorenza mia, ben puoi esser contenta/ di
questa digression che non ti tocca- v. 127-128
Florença
minha, bem podes ficar contente/ por esta digressão, que não te toca
-- seu povo tem a justiça no coração, na boca, mas é cauteloso em
colocá-la em prática:
Molti
han giustizia in cuore, e tardi scocca/ per non venir sanza consiglio a l’arco;
v. 130-132)
Muitos têm a justiça no coração, e são
lentos/ para não se precipitarem em
disparar o arco;
-- seu povo é solícito e assume logo encargos públicos (na
realidade, seu povo é ávido pelo poder):
ma il popol tuo solicito risponde/ sanza
chiamare, e grida: “I’ mi sobbarco!”- v. 134-135
ma o
povo teu, solícito, responde/ sem ser chamado, e grita: “Eu assumo!”
-- é rica, vive em paz e é
sensata (é rica mas não vive em paz nem é sensata):
--tu
ricca, tu con pace e tu con senno!- v. 137
tu
rica, tu com paz e tu com bom senso!
-- o progresso de Florença quanto ao bem viver é superior ao de
Atenas e Esparta, que foram tão civilizadas:
Atene e Lacedemona, che fenno/ l’antiche
leggi e furon sì civili,/ fecero al viver bene un picciol cenno/ verso di te /.../
- v. 139-142
Atenas
e Esparta, que promulgaram/ as antigas leis e foram tão civilizadas,/ fizeram
quanto ao bem viver um progresso pequeno/ comparado ao teu /.../
Nos últimos
versos, Florença -- que apesar de sua prosperidade, sofre dos males antes
apontados -- é comparada a uma mulher rica (cf seu “leito de plumas”- v. 150)
(3) mas doente, que se revira na cama, para atenuar a dor desses males:
E se ben ti ricordi e vedi lume,
vedrai te somigliante a quella inferma
che non
può trovar posa in su le piume,
ma con dar volta suo dolore scherma. (VI, 148-151)
E se
bem te recordas e vês claro/ verás a ti semelhante àquela enferma/ que não
encontra repouso em seu leito de plumas/
e se defende
da dor mudando de posição.
NOTAS
(1)
MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”. Bantam
Books, 1984- p.329.
(2) Id.
ibid, p.330
(3)
CIARDI, John- “Dante- The Purgatorio”. Signet Classics, 2009- p. 59.
John Flaxman- Encontro com Sordello
|
Salvador Dalí |
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